O segundo número desta série vem do Censo de 2021, o último que Portugal realizou, e é dos que mais me fizeram pensar sobre a forma como pregamos: em dez anos, o número de portugueses que se declaram sem religião passou de cerca de 615 mil para mais de 1,2 milhão, de 6,8% para 14,1% da população com quinze anos ou mais. Nenhum outro grupo cresceu tanto. Os evangélicos também cresceram, é verdade, de 0,8% para 2,1%, mas partindo de quase nada, enquanto os sem religião partiram de um grupo já grande e simplesmente dobraram. Se a tendência continuar, e tudo indica que sim, a próxima geração portuguesa terá mais gente sem religião nenhuma do que gente em todas as igrejas evangélicas juntas, multiplicada várias vezes.
O que este número não mostra, e que só se aprende vivendo aqui, é que essa saída da religião não se faz com raiva. Em mais de vinte e cinco anos de obra missionária passei por lugares onde a fé cristã era combatida abertamente, e Portugal não é um deles. O português que deixa a religião não bate a porta, apenas deixa de entrar; não discute com o evangelho, apenas não vê razão para pensar nele. A Aliança Evangélica, numa pesquisa com quinhentos não evangélicos em 2019, encontrou 62% com opinião positiva sobre Jesus Cristo e 78% que achavam as pessoas mais abertas a falar de espiritualidade do que antes, e ao mesmo tempo apenas 24% que aceitariam uma conversa informal sobre a Bíblia. É esse o retrato: simpatia sem interesse, abertura sem busca.
Para quem vem do Brasil, onde uma pregação ao ar livre ainda junta gente e onde a palavra "igreja" ainda significa alguma coisa para quase todos, isso exige uma mudança de método e, sobretudo, de paciência. A evangelização aqui é lenta e demorada, feita de relacionamento, de convites que se repetem durante meses, de vizinhos que primeiro confiam na pessoa e só depois ouvem a mensagem. Por isso insisto tanto no ensino bíblico simples, claro e objetivo, pois quando finalmente alguém se dispõe a ouvir, precisa de ouvir o evangelho inteiro e não um fragmento, dado que dificilmente haverá uma segunda oportunidade nos moldes em que estamos habituados.
Reconheço que há dias em que este número pesa, pois é fácil olhar para 1,2 milhão e se sentir pequeno. Mas o mesmo Censo que registra a indiferença registra também que o evangelho continua chegando a pessoas que ninguém esperava, e o relatório de 2025 da Aliança Evangélica mostra que quase metade dos novos convertidos eram católicos que já não praticavam, ou seja, gente que estava exatamente nesse caminho de saída da religião e que, em vez de sair para o nada, encontrou Cristo. Deus é soberano também sobre a secularização, e não tem plano B.
Se o irmão ora por Portugal, peço que ore por duas coisas ao mesmo tempo. Ore, sim, por avivamento, pois creio nele e sei que, quando Deus se move, se faz em poucos meses o que uma vida inteira de esforço não alcança; a história da igreja está cheia desses períodos, e não vejo razão para pensar que Portugal esteja fora deles. Mas ore também pelo que fazemos enquanto o avivamento não vem, pois ele chega no tempo de Deus e não no nosso: por igrejas com paciência para semear durante anos em terreno que parece não responder, e por portugueses que, no meio da indiferença, sejam despertados para a pergunta que deixaram de fazer. Quem espera o avivamento de braços cruzados desperdiça o tempo da semeadura, e quem semeia sem esperar por ele esquece de quem é a colheita (Sl 126.5-6). O próximo artigo desta série será sobre o outro lado desta moeda, os 80% que ainda se dizem católicos, e sobre o que significa pregar a quem acha que já conhece o evangelho.
Os números completos, com gráficos, mapa por distrito e kit para igrejas.