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Portugal por dentro

Portugal por dentro: sete em cada dez

Onde vivem os evangélicos portugueses, e onde quase não vivem

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Começo esta pequena série com um número que carrego comigo desde que li o primeiro estudo da Aliança Evangélica Portuguesa sobre as igrejas do país, pois ele explica melhor do que qualquer discurso o que significa fazer missões em Portugal: sete em cada dez evangélicos portugueses vivem em apenas três distritos, Lisboa, Porto e Setúbal. Dito de outra forma, o litoral concentra a igreja, e o interior, que é a maior parte do território, fica com o pouco que sobra. O mesmo estudo, de 2016, descrevia a igreja em algumas regiões como "quase invisível", e usava para distritos como a Guarda e Vila Real uma média inferior a vinte membros por congregação, o que na prática significa uma sala com meia dúzia de famílias, quase sempre idosas, e um pastor que muitas vezes se divide entre duas ou três delas.

Quem olha para Portugal de fora, com os olhos de quem vive no Brasil, tende a imaginar um país pequeno e, por isso, fácil de alcançar. Mas a distância que importa aqui não se mede em quilômetros (do Minho ao Algarve são pouco mais de seis horas de carro), se mede em gente disposta a ficar. Os relatórios mais recentes da Aliança Evangélica, de 2023 e 2025, mostram que as igrejas continuam planejando novas congregações sobretudo em Lisboa, Porto e Aveiro, enquanto Beja, Castelo Branco, a Guarda, Bragança e Portalegre aparecem, ano após ano, entre os distritos menos visados e com menos igrejas plantadas. Não é falta de informação, pois os números estão publicados; é a lógica natural de quem planta onde já há pessoas, recursos e resultados, e que deixa para depois o lugar onde tudo é mais lento, mais caro e mais solitário.

Não escrevo isso para criticar as igrejas do litoral, pois é delas que sairão, se Deus quiser, os obreiros para o interior, e é entre elas que servimos, na Igreja Baptista de Cascais, que faz parte exatamente dessa concentração. Escrevo porque, ao longo de mais de vinte e cinco anos de obra missionária, vi muitos casos que confirmam a mesma lição: para alcançar o interior é preciso haver igrejas fortes noutras partes do país, com visão missionária, dispostas a investir tempo e recursos, humanos e financeiros, com comprometimento e perseverança, pois leva-se muitos anos até que uma igreja consiga caminhar sozinha, e ainda mais no contexto do interior de Portugal, onde as pessoas são poucas, envelhecidas e desconfiadas de tudo o que vem de fora. Tentar estabelecer igrejas nessas regiões sem essa retaguarda é, na maioria das vezes, fracasso a longo prazo, e o mapa que descrevi acima é, em boa parte, o retrato de tentativas assim.

Essa não é uma estratégia nova, foi a do apóstolo Paulo, que plantava a partir de centros como Antioquia, Éfeso e Corinto, voltava às igrejas que tinha fundado, enviava obreiros e cartas, e mobilizava congregações mais fortes para sustentar as mais fracas (At 14.21-23; Fp 4.15-16), e ela continua valendo para os nossos dias. É por isso que entendo o nosso trabalho em Cascais como parte desse caminho, e não como um desvio dele: pregar, discipular e formar obreiros numa igreja do litoral para que, no tempo de Deus, ela e outras como ela tenham gente preparada e visão suficiente para olhar para o Alentejo, para Trás-os-Montes e para a Beira Interior como Paulo olhou para as regiões onde Cristo ainda não tinha sido anunciado (Rm 15.20), sabendo que ali o fruto demora, o sustento é mais difícil e o reconhecimento, quase nenhum.

Há, ainda assim, sinais de esperança que não quero esconder. A mesma pesquisa de 2025 registrou crescimento em todas as regiões do país, incluindo as mais carenciadas, e em 2025 mais da metade dos novos convertidos nasceu em Portugal, o que contraria a ideia de que a igreja evangélica só cresce por causa da imigração. Deus não abandonou o interior português; Ele apenas continua esperando por quem vá, e por igrejas dispostas a segurar as cordas de quem for. Por isso, quando pedimos oração pelo nosso trabalho, pedimos também que o Senhor levante, nas igrejas fortes do litoral, homens e mulheres dispostos a fazer o caminho contrário ao que todos fazem, e congregações dispostas a sustentá-los pelos anos que forem necessários.

Nas próximas edições desta série vou partilhar, sempre com um número e uma reflexão, o que os dados mostram sobre a religião em Portugal, sobre os que se declaram sem religião e sobre o crescimento recente das igrejas. Tudo com fonte, pois aprendi que a confiança de quem nos apoia se constrói com transparência, tanto nas alegrias como nas lutas. Os números completos, com gráficos e um mapa por distrito, estão na página "O Desafio em Portugal" deste site.

Os números completos, com gráficos, mapa por distrito e kit para igrejas.