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Curso de Capacitação Missionária · Artigo 70/98

A Cidade Também é Campo Missionário

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A urbanização global passou de apenas 5% da população mundial vivendo em cidades, em 1800, para mais de 55% atualmente, com projeção de alcançar 68% até 2050. As cidades concentram poder cultural, político e simbólico capaz de moldar o mundo muito além de suas próprias fronteiras geográficas. Decisões tomadas em poucos centros urbanos podem afetar a vida de regiões inteiras que jamais terão contato direto com esses lugares. O desafio urbano, porém, possui uma raiz teológica que ultrapassa números e estratégias: as cidades são, ao mesmo tempo, lugares de esperança bíblica e espaços de resistência estruturada ao Reino de Deus. A desigualdade urbana também é estrutural, e não acidental. Cerca de 1,1 bilhão de pessoas vivem atualmente em favelas ao redor do mundo, e responder missionariamente a essa realidade exige cooperação concreta entre igrejas, e não apenas iniciativas isoladas e desconectadas.

No interior dessas grandes cidades surgem o que podemos chamar de novas tribos urbanas, grupos que se organizam mais por afinidades de interesse do que pela proximidade geográfica tradicional. A solidão alcança cerca de 16% da população mundial, segundo a Organização Mundial da Saúde, e é agravada pelo ritmo acelerado e pela fragmentação da vida nas grandes cidades. A linguagem e os códigos culturais próprios desses grupos podem determinar se o evangelho será sequer ouvido antes de ser racionalmente avaliado por quem o escuta. Essas tribos urbanas podem funcionar como comunidades alternativas de salvação, tornando a conversão a Cristo especialmente custosa para quem já encontrou pertencimento em outro lugar. A igreja, contudo, é chamada a ser uma tribo diferente de todas as demais, unida por um centro comum, Cristo, e não por afinidades culturais ou preferências compartilhadas. Como Paulo escreveu aos gálatas, “não pode haver judeu nem grego, escravo nem liberto, homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3.28).

A injustiça urbana também deve ser compreendida como um fenômeno estrutural, e não apenas como a soma de pecados pessoais isolados. Ela se consolida em sistemas que parecem normais justamente porque se repetem de geração em geração. Mais de 1,1 bilhão de pessoas vivem em favelas, enquanto mais de 2 bilhões trabalham na informalidade, sem proteção ou estabilidade básica. Não existe, biblicamente, uma verdadeira dicotomia entre a proclamação do evangelho e a responsabilidade social prática. Quando corretamente compreendido, o evangelho integra essas duas dimensões sem contradição. A realidade urbana, porém, tende a empurrar a igreja para dois extremos igualmente infiéis: um espiritualismo vazio, desconectado das necessidades concretas das pessoas, ou um ativismo social sem o anúncio explícito de Cristo. A proximidade intencional com os marginalizados torna a fidelidade da igreja visível de maneira concreta, muito além de discursos bem elaborados sobre o tema.

Universidades, veículos de comunicação e órgãos públicos funcionam como importantes centros de formação cultural, influenciando a sociedade para muito além de suas funções institucionais visíveis e declaradas. Nesses ambientes de influência, existe o risco de absorção pela lógica do prestígio, inclusive entre pessoas sinceramente bem-intencionadas. Pequenos ajustes silenciosos podem ser feitos ao longo do tempo até que a fidelidade original se dilua, sem que se perceba claramente quando ocorreu essa mudança. Três competências são fundamentais para um preparo intelectual sólido nesses espaços: compreender os pressupostos culturais dominantes, comunicar fielmente a mensagem e manter integridade pública ao longo do tempo. O preparo espiritual é igualmente indispensável, pois protege contra a vaidade pessoal e a dependência excessiva da aprovação humana. Jesus enviou seus discípulos como ovelhas para o meio de lobos e lhes ordenou que fossem “prudentes como as serpentes e símplices como as pombas” (Mt 10.16). Esse equilíbrio é raro, mas corresponde exatamente ao que esses centros de poder exigem daqueles que representam Cristo.

Pesquise os dados sobre urbanização e desigualdade da própria cidade ou região onde você vive, em vez de considerar apenas estatísticas globais distantes. Identifique um “bolsão de invisibilidade” próximo de você, isto é, um grupo específico que sua cidade prefere não ver ou sequer nomear. E, se você atua em uma universidade, veículo de mídia ou órgão público, examine com honestidade se, ao longo do tempo, algum ajuste silencioso de prioridades já começou a ocorrer em sua própria vida, ainda que sem alarde.

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