Ao longo desta série, um mesmo fio condutor atravessou quase cem artigos: a missão nunca foi um departamento da igreja, uma comissão entre tantas outras ou um mês especial no calendário. Desde o princípio, ela está no próprio coração de Deus em movimento. A missão começa nele: o Pai envia o Filho, o Filho envia o Espírito, e o Espírito envia a igreja. E continua nele, sustentada não pela competência de quem serve, mas pela fidelidade daquele que chama. Se existe uma conclusão que estes artigos, considerados em conjunto, repetem insistentemente, é esta: a igreja brasileira não precisa inventar uma nova vocação missionária. Precisa redescobrir a vocação que sempre recebeu e que o tempo, a rotina e a comodidade foram, pouco a pouco, fazendo esquecer.
Vimos que essa vocação nasce em Gênesis, e não apenas em Mateus 28. A missão de Deus já estava presente na promessa feita a Abraão, percorreu os profetas, alcançou sua plenitude em Cristo e nunca deixou de mover a história. Vimos também que a igreja local, e não uma agência distante ou um especialista contratado, é a principal responsável pelo envio. É ela que discerne o chamado, forma o caráter, sustenta financeiramente, acompanha e cuida ao longo dos anos e recebe de volta aquele que retorna. Essa responsabilidade não termina no culto de despedida. Ela inclui o cuidado integral do missionário e de sua família, o acompanhamento próximo durante o preparo, o apoio real diante das crises inevitáveis do campo e a acolhida sincera de quem volta trazendo consigo o choque cultural reverso que, muitas vezes, a própria igreja não sabe reconhecer nem nomear.
Vimos, ainda, que essa vocação não se sustenta por si mesma. Ela depende de um evangelismo genuíno, que não confunde uma decisão apressada com fé verdadeira; de um discipulado real, que forma vidas por meio de vidas, e não apenas transmite conhecimento; e de uma igreja que reconhece suas próprias crianças como participantes da obra de Deus hoje, e não apenas como promessas para um futuro distante. Depende também de preparo sério, espiritual, ético e prático, para aqueles que sentem o chamado de atravessar fronteiras. E exige honestidade diante dos desafios concretos que esse chamado encontra: povos ainda sem acesso ao evangelho, países que fecham suas portas, cidades marcadas pela concentração de poder e desigualdade, ideologias que competem abertamente com a mensagem de Cristo e seitas que distorcem o nome do próprio Senhor que afirmam seguir. Por fim, depende da disposição de plantar onde ainda não existe igreja e de revitalizar onde a chama perdeu força, porque plantação e revitalização são, em essência, a mesma obediência vivida em contextos diferentes.
Nada disso, porém, é responsabilidade de especialistas distantes, vocacionados excepcionais ou de uma categoria separada de cristãos mais dedicados que os demais. É tarefa da igreja comum, reunida todos os domingos, formada por pessoas comuns que aprenderam, ou ainda precisam aprender, que o evangelho recebido não lhes foi dado para ser guardado. Paulo perguntou aos romanos: “E como pregarão, se não forem enviados?” (Rm 10.15). Essa pergunta continua ecoando sem resposta em muitas igrejas brasileiras que sabem cantar sobre missões, mas raramente sustentam, de fato, aqueles que elas mesmas enviaram.
O Brasil ocupa hoje uma posição que poucas gerações anteriores poderiam imaginar. De campo receptor de missionários estrangeiros, tornou-se uma das maiores forças de envio do Sul Global. Essa mudança não deveria alimentar orgulho institucional, mas produzir uma responsabilidade ainda maior. A mesma igreja que recebeu o evangelho de mãos estrangeiras há gerações hoje possui recursos, pessoas e maturidade suficientes para levá-lo adiante. Mas maturidade espiritual não é automática, assim como uma história de recebimento não garante disposição presente para dar. Cada geração precisou, a seu modo, redescobrir a mesma vocação. A nossa não será diferente.
Se você chegou até aqui, ao final de uma série inteira dedicada a esse tema, talvez a pergunta mais honesta não seja teórica, mas prática: o que a sua igreja fará de diferente nesta semana? Talvez seja retomar o contato com um missionário que ela sustenta, mas de quem já não recebe notícias há meses. Talvez seja abrir espaço, na próxima reunião de liderança, para perguntar com seriedade se há algum vocacionado dentro da própria congregação esperando apenas ser percebido e confirmado. Talvez seja revisar o orçamento anual e descobrir, com honestidade, se a missão está ali por uma decisão deliberada ou apenas pelo que restou depois que todas as outras despesas foram definidas. Talvez seja simplesmente orar: por um nome, por um povo específico, por um campo difícil ou por uma família que voltou e ainda não foi verdadeiramente acolhida.
Nenhum desses passos exige uma igreja grande, rica ou bem estruturada. Exige apenas uma igreja disposta a lembrar quem é e para que foi chamada. A missão nunca dependeu do tamanho daqueles que a carregam, mas da fidelidade daquele que a sustenta. Que esta série não seja apenas mais um arquivo de leitura concluída, mas um convite renovado. A igreja brasileira já possui tudo o que precisa para redescobrir sua vocação missionária. Falta apenas dar o primeiro passo. E ele pode começar exatamente onde você está, hoje.
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