É comum ouvir que as crianças são “o futuro da igreja”. A frase soa bonita, mas contém um erro sutil: apresenta a criança como uma promessa que só se concretizará no futuro, em vez de reconhecê-la como participante real da obra de Deus no presente. A missão de Deus sempre incluiu as crianças, desde a promessa feita a Abraão de que, por meio de sua descendência, todas as famílias da terra seriam abençoadas (Gn 12.3). A formação espiritual dos filhos é, antes de tudo, responsabilidade da própria família, com o cuidado e o apoio da igreja ao seu redor. Deus leva os pequenos a sério e espera que seu povo faça o mesmo.
Samuel, ainda menino, já ouvia a voz de Deus no templo. Davi, ainda jovem, enfrentou Golias enquanto homens adultos permaneciam hesitantes. Esses exemplos mostram que a criança pode participar ativamente da obra de Deus, e não apenas recebê-la de forma passiva, como uma espectadora que precisa esperar crescer. A criança não é apenas o futuro da missão. Ela já participa dela hoje, exercendo um papel real que, muitas vezes, a igreja subestima.
Jesus foi ainda mais longe. Ele apresentou a criança como modelo do próprio Reino dos Céus, e não apenas como alguém que deveria ser instruído por adultos considerados mais sábios. Os Evangelhos mostram a indignação de Jesus diante daqueles que afastavam os pequenos de sua presença. Ele não tratou a criança como um incômodo inevitável. Ao contrário, aproximou-se dela, acolheu-a, abençoou-a e a defendeu daqueles que tentavam mantê-la afastada (Lc 18.16).
Essa valorização não surgiu apenas no Novo Testamento. A aliança do Antigo Testamento já incluía as crianças antes mesmo de elas serem capazes de compreender ou decidir por si mesmas. Em Deuteronômio, nos Salmos, em Provérbios e em Êxodo, Deus estabeleceu um projeto contínuo de ensino dirigido aos filhos, geração após geração.
Nesse sentido, Antigo e Novo Testamento falam a mesma língua: a criança sempre teve lugar na aliança de Deus com seu povo, e esse lugar não dependia de esperar até que ela crescesse o suficiente para “entender direito”. Para Jesus, fazer tropeçar um pequenino que crê é motivo de um dos mais severos juízos possíveis (Mt 18.6). Essa advertência deveria pesar sobre qualquer decisão institucional que trate o ministério infantil como uma área secundária, entregue aos últimos voluntários disponíveis.
Escreva o nome de uma criança da sua família ou da sua igreja e ore especificamente por ela ainda esta semana. Não faça apenas uma oração genérica pelas crianças em geral. Ore por essa criança pelo nome, lembrando-se de suas necessidades e de sua caminhada. Pergunte à liderança da sua igreja se as crianças têm hoje algum espaço real de participação na vida da comunidade, para além de simplesmente receber uma aula na escola dominical. E conte a uma criança, com suas próprias palavras, a história bíblica de alguém pequeno que Deus usou de maneira real.
A forma como uma igreja trata suas crianças hoje revela, com clareza, o que ela realmente acredita sobre o lugar delas no Reino de Deus.
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