A dignidade da criança está no fato de ter sido criada à imagem de Deus, e não em sua utilidade futura para a igreja ou para a sociedade. Ela não é um ser humano em potencial, à espera de se tornar plenamente humana algum dia. Já é um ser humano pleno e possui capacidade espiritual genuína desde muito cedo. O Salmo 8 e o relato de João Batista, cheio do Espírito Santo desde o ventre materno (Lc 1.15), mostram que essa capacidade espiritual não é uma concessão simbólica, mas uma realidade apresentada nas próprias Escrituras. Desde Agostinho até Wesley, a tradição cristã levou a sério a possibilidade de uma fé genuína na criança pequena, sem tratá-la como uma fé de segunda categoria.
Por isso, o evangelismo infantil é urgente, estratégico e responsabilidade de toda a igreja, não apenas daqueles que possuem talento ou uma vocação específica para trabalhar com crianças. A maioria das pessoas que decide seguir a Cristo toma essa decisão ainda cedo na vida. Evangelizar uma criança, portanto, significa contribuir para a formação integral de uma vida inteira, e não apenas conduzir alguém a uma decisão pontual que será celebrada e logo esquecida. Entre as finalidades bíblicas desse evangelismo estão o desenvolvimento de uma relação pessoal com Cristo, a construção de um fundamento espiritual sólido e o discipulado contínuo. Afinal, não é da vontade do Pai celestial que se perca um só desses pequeninos (Mt 18.14). Nesse processo, porém, existe um grande perigo: confundir a repetição mecânica de uma oração com uma fé genuína e compreendida.
Os desafios dessa tarefa vêm tanto de fora, da cultura que cerca as crianças, quanto de dentro, da falta de preparo adequado daqueles que as ensinam. Todo preparo verdadeiro para evangelizar crianças, entretanto, começa no coração do ensinador, antes de qualquer método ou técnica. Comunhão genuína com Deus, amor verdadeiro pela criança, conhecimento bíblico sólido e sensibilidade emocional formam os quatro pilares desse preparo. Sem eles, até mesmo a estratégia mais bem elaborada perde sua força.
Estratégias concretas podem tornar a comunicação do evangelho mais acessível: histórias bem contadas, músicas, dinâmicas participativas e recursos visuais, como o chamado Livro sem Palavras, que apresenta o evangelho por meio de cores simples e diretas. Nenhuma dessas estratégias, porém, é suficiente por si só. A evangelização infantil precisa ser acompanhada de discipulado contínuo e não pode terminar no momento em que a criança repete uma oração conduzida por um adulto. Jesus foi claro: “Deixai os pequeninos, não os embaraceis de vir a mim, porque dos tais é o reino dos céus” (Mt 19.14). Trata-se de um convite direto, sem intermediários que dificultem o acesso da criança a ele.
Escolher uma criança específica da igreja ou da família e conversar com ela, demonstrando que a fé que ela já possui é levada a sério, por mais simples que possa parecer, é um bom ponto de partida. Servir na escola dominical ou em outro ministério infantil, ainda que apenas uma vez, ajuda a conhecer essa realidade de perto. Escolher uma das estratégias mencionadas, uma história, uma música, uma cor ou uma brincadeira, e prepará-la cuidadosamente para os próximos dias, completa esse exercício. Nesse contexto, preparar-se significa colocar coração, mente e mãos diante de Deus.
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