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Portugal por dentro

Portugal por dentro: católico, mas pouco

Oitenta por cento se dizem católicos. Vinte por cento vão à missa.

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O terceiro número é, na verdade, um par de números que só fazem sentido juntos. No Censo de 2021, 80,2% dos portugueses com quinze anos ou mais se identificaram como católicos. Nos inquéritos internacionais sobre prática religiosa (a World Values Survey, analisada em 2023 pelo centro CARA da Universidade de Georgetown), cerca de 20% desses católicos dizem ir à missa toda semana. Quatro em cada cinco católicos portugueses, portanto, não praticam a religião que declaram. O estudo do Pew Research Center de 2018 acrescenta um dado que me impressionou: apenas 44% dos portugueses têm certeza absoluta de que Deus existe. É o valor mais alto da Europa Ocidental e, ainda assim, é menos da metade.

Quando cheguei a Portugal, vindo de anos de trabalho na Índia e na Itália, pensei que a Itália me havia preparado para isso, pois lá também o catolicismo é cultura antes de ser fé. Só com o tempo percebi uma diferença. Em Portugal, a religião católica é herança e também identidade nacional: está no nome das ruas, nas festas de cada aldeia, no calendário escolar, em Fátima. Por isso o português que ouve falar de "igreja evangélica" não ouve uma proposta de fé. Ouve algo estrangeiro, muitas vezes brasileiro, e não raro uma "seita". O desafio não é convencê-lo de que Deus existe, pois a maioria aceita isso sem discutir. É explicar que o evangelho não é o que ele acha que já conhece.

É por isso que insisto tanto no ensino. A palavra "evangelho" vem do grego euangelion, "boa notícia", e uma boa notícia só chega a quem a ouve com clareza. Pregar em Portugal é explicar com paciência o que a graça significa para quem cresceu ouvindo que a salvação se merece, o que a Escritura é para quem nunca a abriu e o que a igreja é para quem só a conhece como instituição. Costumo dizer que muitos portugueses cresceram ouvindo falar de Deus sem compreender o evangelho. A quem tem religião de sobra, nosso trabalho é levar Cristo. Campanhas não bastam para isso. São necessários anos de exposição bíblica simples, clara e objetiva, numa comunidade local que vive o que prega.

Não quero que este quadro soe a desprezo, porque não é. O povo português é dos mais hospitaleiros que conheci. A mesma herança católica deixou uma familiaridade com a linguagem bíblica que em outros países da Europa já desapareceu por completo. O relatório de 2025 da Aliança Evangélica registrou que quase metade dos novos convertidos eram católicos não praticantes. Esse "solo duro" cede, mas exige mais tempo, mais relacionamento e mais fidelidade do que estamos acostumados a dar.

Se puder orar, ore para que os portugueses que se dizem católicos por tradição ouçam, pelo menos uma vez na vida, o evangelho explicado com clareza por alguém em quem confiam. Ore também por nós, que servimos em Cascais, para que a nossa pregação seja fiel o bastante para não confundir e simples o bastante para ser entendida. No último artigo desta série vou falar do número que mais surpreende quem olha para Portugal de fora: a igreja evangélica está crescendo, e é preciso entender como.

Os números completos, com gráficos, mapa por distrito e kit para igrejas.

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