Ignorar o contexto de quem ouve não é sinal de fidelidade doutrinária, mas negligência pastoral disfarçada de rigor. Contextualizar o evangelho é tornar sua mensagem clara para quem a escuta, sem torná-la superficial. Essa distinção separa a contextualização genuína da simples concessão à cultura. O objetivo nunca é tornar o evangelho popular ou agradável a qualquer custo, mas fazê-lo compreensível para quem, de outra forma, jamais entenderia o que está sendo anunciado.
O Novo Testamento apresenta quatro cenas que ilustram esse princípio com clareza. Jesus, ao conversar com a mulher samaritana, começou pela sede física dela e usou a água do poço como ponte para falar da água viva (Jo 4). Pedro, diante dos judeus reunidos em Jerusalém, partiu das Escrituras que eles já conheciam e respeitavam (At 2). Filipe, ao encontrar o eunuco etíope, começou com uma pergunta simples sobre o que ele estava lendo (At 8). Paulo, em Atenas, partiu de um altar dedicado “ao Deus Desconhecido”, que havia observado na cidade (At 17.23). Em cada uma dessas situações, o ponto de partida foi diferente. O destino, porém, permaneceu o mesmo: todas as conversas apontaram para Cristo. Comece onde o outro está; termine onde Cristo está.
Essa flexibilidade quanto à porta de entrada tem limites claros. Três modelos distorcidos ajudam a identificar o momento em que a contextualização se transforma em outra coisa. O modelo impositivo fala sem realmente ouvir e pode provocar resistência à postura de quem fala, e não necessariamente à mensagem que anuncia. O modelo pragmático mede o sucesso pelo número de respostas, confundindo emoção momentânea com conversão genuína e duradoura. O modelo sociológico, por sua vez, substitui o centro da mensagem, Cristo crucificado e ressuscitado, pela simples melhoria das condições externas de vida, como se o evangelho fosse, em essência, apenas um programa social bem-intencionado. Nesse contexto, a obra de misericórdia é um fruto legítimo e uma companheira necessária do evangelho, mas jamais pode ocupar o seu lugar.
Em qualquer dessas situações, o evangelizador é servo da mensagem, não seu proprietário. Ele não tem autoridade para alterar seu conteúdo com o objetivo de facilitar sua aceitação. Clareza é, portanto, um verdadeiro serviço cristão. Simplicidade não significa superficialidade, assim como o uso de um vocabulário acessível não implica esvaziar a mensagem de sua substância. Contextualizar é mudar a ponte que conduz à mensagem, não mudar a margem para a qual essa ponte conduz. Paulo expressou essa tensão ao escrever aos coríntios que pregava a Cristo crucificado, escândalo para uns e loucura para outros, sem suavizar aquilo que continuava sendo ofensivo para muitos de seus ouvintes (1Co 1.23).
Por isso, vale fazer um exercício prático. Liste cinco palavras usadas com frequência dentro da igreja que alguém de fora dificilmente compreenderia, como “santificação”, “comunhão” e “unção”. Ao lado de cada termo, escreva como você o explicaria em uma frase simples, sem recorrer a jargões. Depois, identifique qual dos três modelos distorcidos, impositivo, pragmático ou sociológico, é mais provável no seu próprio modo de evangelizar e procure corrigir conscientemente essa tendência na próxima conversa. Por fim, escolha um conhecido específico e pense em qual seria a ponte de acesso mais natural para iniciar uma conversa sobre fé com essa pessoa. Não a ponte mais fácil para você, mas a mais adequada à realidade dela.
Quer conhecer melhor o trabalho do Projeto Didasko em Portugal?