Contextualizar o evangelho não é uma estratégia opcional para missionários mais criativos. É uma necessidade inseparável da própria natureza da mensagem cristã. O evangelho é verdade para todos os povos, em qualquer lugar e época, mas só é realmente compreendido quando atravessa a cultura de quem o ouve. O próprio Deus estabeleceu o modelo definitivo desse movimento na encarnação de Cristo. “Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4.4). O Verbo não permaneceu em uma linguagem universal e abstrata. Ele entrou em uma cultura particular, falou uma língua específica e viveu em um tempo histórico concreto para ser plenamente compreendido por aqueles que o receberam.
A partir desse modelo, a missão cristã desenvolveu, ao longo da história, três formas principais de contextualização. A primeira é a tradução, que busca equivalentes culturais precisos para os conceitos bíblicos. A segunda é a forma encarnacional, que procura imitar o próprio Cristo ao assumir, tanto quanto possível, o modo de vida do povo que se deseja alcançar. A terceira é a forma profético-contracultural, que utiliza a linguagem e as categorias de uma cultura para confrontá-la a partir de dentro, como fizeram os profetas do Antigo Testamento.
Nenhuma dessas formas significa negociar a verdade do evangelho. A Escritura sempre avalia a cultura; a cultura nunca avalia a Escritura. Esse princípio simples distingue a contextualização fiel da acomodação disfarçada.
É exatamente nessa fronteira que surge o sincretismo, isto é, a mistura entre o evangelho e elementos de uma cultura ou religião anterior que não deveriam permanecer. O sincretismo raramente se apresenta como tal. Ele costuma disfarçar-se de adaptação razoável, sensibilidade cultural ou bom senso pastoral. Sua causa mais comum não é a má-fé, mas a ausência de ensino bíblico sólido e contínuo. Comunidades que não são regularmente formadas pela Palavra ficam mais vulneráveis a incorporar, sem perceber, crenças e práticas que competem com o senhorio exclusivo de Cristo.
Paulo advertiu os gálatas de maneira contundente sobre esse perigo: “Se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema” (Gl 1.6-9). Cristo não divide o trono com nenhum outro deus, antigo ou moderno. Isso se aplica tanto a um ritual ancestral quanto a ídolos muito mais familiares ao leitor ocidental, como o consumismo e o sucesso pessoal.
O antídoto para esse risco é o mesmo processo mencionado anteriormente: uma contextualização crítica, realizada não de forma isolada pelo missionário, mas em comunidade, tendo a Escritura como centro. Esse processo exige discernimento para distinguir o que pode permanecer de uma cultura daquilo que precisa ser abandonado, sem cair no extremo oposto de rejeitar toda a cultura de um povo, como se ela fosse inteiramente corrompida.
Existe, inclusive, um espectro utilizado para avaliar quanto da identidade religiosa anterior pode permanecer depois da conversão: a chamada escala C1 a C6. Ela vai de C1, que representa comunidades organizadas de maneira muito semelhante às igrejas daqueles que as evangelizaram, até C6, que descreve crentes isolados que escondem completamente sua fé por causa do risco. Essa escala é utilizada especialmente nos debates sobre os chamados insider movements, movimentos de crentes que permanecem dentro da estrutura social e até religiosa de sua cultura de origem.
Muitos dos que estudam esse tema situam a fidelidade bíblica entre os pontos C3 e C4 da escala: nem uma reprodução importada da cultura de quem evangeliza, nem uma diluição tão ampla que o próprio Cristo crucificado deixe de ocupar o centro e de ser claramente confessado.
É importante reconhecer, porém, que esse trabalho nunca termina. A contextualização fiel não é uma tarefa que se resolve no início do trabalho missionário e depois permanece concluída. Ela precisa ser retomada por cada geração, porque toda cultura muda e a igreja precisa continuar traduzindo significados, e não apenas palavras, para aqueles que estão nascendo e crescendo dentro dela.
Uma igreja pode praticar esse discernimento sem sair de casa. Pode escolher, por exemplo, um termo bíblico que seus membros usam com frequência, como graça, redenção ou salvação, e pedir que expliquem seu significado com as próprias palavras, como se fosse a primeira vez que alguém ouvisse aquele conceito. Esse exercício ajuda a perceber se a mensagem continua sendo realmente compreendida ou se está apenas sendo repetida.
Também é possível revisar alguma prática ministerial já adotada pela igreja e perguntar, com honestidade, se ela nasceu para aquele contexto específico ou se foi simplesmente copiada de outra igreja, sem que ninguém tivesse parado para adaptá-la de fato.
Ao apoiar um missionário ou uma igreja parceira que atua em contextos culturais mais delicados, como os insider movements, a igreja também pode orar especificamente por discernimento para aqueles que caminham nesses ambientes e por coragem para que os convertidos, qualquer que seja sua cultura de origem, confessem a Cristo com clareza e sem meio-termo.
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