É comum pensar que o desafio de atravessar culturas está do lado de quem recebe o evangelho: será que aquele povo compreenderá a mensagem? A antropologia missionária começa, porém, com uma pergunta desconfortável na direção contrária: será que quem anuncia compreende a própria bagagem cultural que carrega? A missão sempre acontece no encontro com pessoas reais, inseridas em uma cultura real, e ninguém, nem quem envia nem quem é enviado, participa desse encontro a partir de uma posição culturalmente neutra.
Toda cultura reflete, ao mesmo tempo, a imagem de Deus e as marcas da Queda. Por isso, nenhuma cultura é totalmente boa nem totalmente má. A Palavra de Deus, e não os costumes de quem anuncia, é o único critério capaz de avaliar qualquer cultura com justiça. Ignorar esse princípio produz dois desvios clássicos. De um lado, o etnocentrismo, que transforma a própria cultura em padrão universal. De outro, o sincretismo, que mistura o evangelho com crenças estranhas a ele. A antropologia missionária busca ajudar a igreja a evitar esses dois extremos sem cair no relativismo de considerar toda cultura igualmente válida diante de Deus.
Atravessar uma fronteira cultural, portanto, envolve muito mais do que traduzir palavras. O missionário leva consigo, muitas vezes sem perceber, hábitos, prioridades e pressupostos formados antes mesmo de conhecer a Bíblia. Por isso, precisa aprender a distinguir o que, nessa bagagem, pertence de fato às Escrituras daquilo que é apenas costume herdado de sua própria criação. Ninguém interpreta o mundo de forma culturalmente neutra. Cada cultura oferece formas reais de identidade e pertencimento, mas o evangelho possui um núcleo que está acima de qualquer cultura e, justamente por isso, pode ser verdadeiramente comunicado dentro de qualquer uma delas. Muitas vezes, a resistência de um povo ao evangelho não está na mensagem em si, mas na embalagem cultural estranha com que ela chega.
É por isso que atravessar uma cultura significa entrar em um universo de significados, e não simplesmente aprender novos costumes. Uma frase pode estar correta em sua forma e, ainda assim, produzir um significado completamente diferente para quem a ouve. Em Atenas, Paulo não começou corrigindo os atenienses. Primeiro observou os objetos de culto da cidade, encontrou um altar “ao Deus Desconhecido” e utilizou esse ponto de contato para anunciar a Cristo (At 17.22-23). Antes de falar, ele diagnosticou. Toda cultura, por carregar marcas da imagem de Deus, também possui pontos de contato semelhantes. Cabe a quem anuncia reconhecê-los com paciência, antes de presumir que já compreendeu tudo.
Esse exercício de discernimento não começa no campo missionário, mas dentro da igreja local. A própria congregação já constitui uma realidade cultural, marcada por diferenças de geração, região e criação. É justamente nesse ambiente que a igreja pode desenvolver uma verdadeira escola de escuta e humildade interpretativa antes de atravessar qualquer fronteira geográfica. Uma igreja que aprende a distinguir o que é essencial ao evangelho daquilo que é apenas uma forma cultural de vivê-lo evita dois erros: exportar seus próprios hábitos como se fossem doutrina e preparar candidatos ao campo para enxergar outros povos como projetos, em vez de pessoas.
A igreja pode dar um passo concreto nessa direção ainda esta semana: conversar intencionalmente com alguém da própria congregação que tenha uma geração, origem regional ou criação muito diferente, praticando o exercício de simplesmente ouvir, sem corrigir. É o mesmo aprendizado de que qualquer missionário precisará no campo, apenas começando em casa. Na formação de quem sente o chamado para o serviço transcultural, também é importante perguntar se essa pessoa já aprendeu a distinguir, em sua própria vida cristã, aquilo que procede das Escrituras daquilo que é apenas um hábito aprendido na infância. E, ao orar por missionários ou candidatos, a igreja pode pedir especificamente que eles enxerguem o povo a quem servirão como pessoas reais, com uma história própria e um universo particular de significados, e não como um problema a ser resolvido pelo evangelho que carregam.
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