PT EN
Curso de Capacitação Missionária · Artigo 16/98

A Lente Invisível que Molda Como Cada Povo Vê Deus

← Voltar a Curso de Capacitação Missionária

Antes mesmo que qualquer palavra seja dita sobre Deus, cada pessoa já enxerga o mundo por meio de uma lente que, na maioria das vezes, nem percebe que utiliza. Essa lente é a cosmovisão: o conjunto de crenças e valores por meio dos quais alguém interpreta a realidade, o tempo, a autoridade, a moralidade e o sagrado. Ela é formada ao longo de toda a vida, quase sempre sem que a pessoa perceba que está fazendo escolhas interpretativas. O evangelho nunca encontra alguém neutro diante da realidade. Ele sempre chega a uma pessoa que já está comprometida, ainda que inconscientemente, com determinada maneira de compreender a existência.

A cultura visível de um povo, expressa em seus costumes, festas, hierarquias e tabus, é resultado dessa cosmovisão mais profunda, assim como o fruto revela a raiz. Por isso, mudar apenas os costumes externos de alguém, sem alcançar os significados que os sustentam, produz uma fé frágil. A pessoa pode mudar seu comportamento, mas continua interpretando o mundo pela mesma lente de antes. Quando, porém, o evangelho alcança a cosmovisão de um povo, tocando a raiz e não apenas o fruto, a transformação se torna mais profunda e duradoura, porque os próprios pressupostos que orientam o coração passam a ser submetidos ao senhorio de Cristo.

A diversidade de cosmovisões, portanto, não se resume a uma questão de costumes. Trata-se de diferenças estruturais. Sociedades distintas organizam parentesco, autoridade, tempo, comunicação e relação com o sagrado de maneiras radicalmente diferentes. Algumas valorizam principalmente a decisão individual; outras, a decisão coletiva. Algumas estruturam a experiência moral a partir da culpa pessoal; outras, da honra e da vergonha diante da comunidade. Há ainda contextos marcados pelo medo espiritual e pela percepção constante da atuação de forças invisíveis. O mesmo evangelho encontra cada uma dessas estruturas de maneira diferente e, sem alterar sua mensagem, pode exigir ênfases distintas na comunicação do arrependimento e da salvação. Em uma cultura orientada pela honra, por exemplo, a culpa individual pode não produzir o mesmo impacto encontrado em uma sociedade ocidental. Em contrapartida, a vergonha e a restauração da honra oferecidas por Cristo podem ser compreendidas com grande intensidade.

Isso não significa que alguma cosmovisão humana seja terreno neutro para o evangelho. Também não significa que alguma delas esteja completamente alheia ao agir do Criador. Honra, culpa, medo espiritual e secularização podem constituir diferentes pontos de contato com a mesma boa notícia. O evangelho, porém, não apenas dialoga com essas estruturas: ele também as confronta e as reordena. Cristo pregado é, ao mesmo tempo, escândalo para uns e loucura para outros, mas é poder de Deus para os que creem (1Co 1.22-23). Histórias, provérbios e experiências compartilhadas em comunidade muitas vezes comunicam essa verdade com mais força do que argumentos formais. Por isso, a paciência com o ritmo de cada povo é essencial para formar discípulos que aprendam a obedecer a Cristo dentro de sua própria cultura, em vez de simplesmente reproduzir a cultura daqueles que lhes anunciaram o evangelho.

Antes de olhar para a cultura do outro, porém, a antropologia missionária exige que o próprio missionário olhe para si. A cosmovisão cristã funciona como uma matriz interpretativa, um mapa que orienta o olhar daquele que anuncia o evangelho. O encontro com outra cultura pode revelar dois extremos igualmente perigosos: diluir a própria identidade até desaparecer dentro da nova cultura ou permanecer isolado, julgando tudo a partir dos padrões de sua cultura de origem. A transformação do olhar permite ao missionário deixar de agir como juiz cultural e tornar-se observador participante, servo e testemunha ao mesmo tempo. Esse processo de purificação do próprio mensageiro contribui para que a mensagem seja comunicada com maior clareza e fidelidade.

Quando o evangelho realmente alcança a cosmovisão de um povo, a transformação não consiste simplesmente na substituição de formas externas. Trata-se da ressignificação de significados profundos. Esse processo começa na mente, por meio da renovação à qual Paulo chama os cristãos (Rm 12.2), e se estende progressivamente às relações e à própria vida comunitária.

Antes de falar, contudo, é preciso observar. Grande parte da resistência ao evangelho pode nascer de uma compreensão superficial da cultura do outro, e não necessariamente de uma rejeição genuína da mensagem. Um roteiro simples de perguntas sobre tempo, família, honra, autoridade, culpa e espiritualidade pode ajudar a orientar essa observação. Cada pessoa se comunica por meio de códigos próprios e, sem algum terreno comum, a mensagem pode não ser compreendida.

Uma igreja pode preparar seus membros para esse tipo de discernimento antes mesmo de pensar em enviar alguém para outra cultura. Pode, por exemplo, escolher um costume da própria cultura brasileira, talvez até da própria denominação, e perguntar com honestidade que cosmovisão esse costume revela. Muitas vezes, aquilo que parece absolutamente natural para quem cresceu dentro de determinada cultura passa despercebido justamente por causa dessa familiaridade. Também é possível treinar os membros para identificar, em uma conversa sobre a fé, se estão diante de alguém predominantemente orientado pela culpa, pela honra ou pelo medo espiritual e, a partir disso, ajustar a ênfase com que apresentam Cristo. Antes de compartilhar o evangelho com alguém de origem cultural muito diferente, também pode ser útil registrar, ainda que informalmente, qual cosmovisão essa pessoa parece carregar e orar especificamente por essa raiz, em vez de limitar a oração a um pedido genérico por sua conversão.

Quer conhecer melhor o trabalho do Projeto Didasko em Portugal?