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Curso de Capacitação Missionária · Artigo 12/98

A Missão Moderna Nasceu de Duas Fontes Bem Diferentes

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A partir do século XV, dois movimentos distintos e quase opostos impulsionaram a missão cristã em escala mundial. Um surgiu nos navios que partiam de Portugal e Espanha, entre bandeiras, tesouros e coroas. O outro nasceu da redescoberta do próprio evangelho, em salas de aula, prelos de impressão e vigílias de oração. Compreender essas duas fontes e, sobretudo, a diferença entre elas ajuda a igreja de hoje a distinguir o verdadeiro zelo missionário de uma conquista disfarçada de fé.

A primeira fonte foi a era das Grandes Navegações. Sob o sistema do Padroado, Portugal e Espanha uniram formalmente a conquista territorial à evangelização: onde a coroa chegava, a cruz chegava com ela. Jesuítas e outras ordens católicas avançaram com zelo genuíno. Francisco Xavier, talvez o maior símbolo desse esforço, dedicou-se com intensidade rara à evangelização na Ásia. Entretanto, a associação entre fé e colonialismo produziu consequências que ainda hoje ecoam: batismos em massa sem discipulado, conversões de fachada e, em muitos casos, dominação apresentada como missão. Nem todos, porém, permaneceram em silêncio. Bartolomeu de Las Casas levantou a voz, praticamente sozinho, contra a violência cometida em nome da cruz contra os povos indígenas das Américas. Sua atuação demonstra que era possível permanecer fiel mesmo dentro de um sistema profundamente corrompido.

A segunda fonte foi muito diferente e, ironicamente, é a que menos recebe reconhecimento: a própria Reforma Protestante. É comum afirmar que os reformadores não demonstravam interesse por missões, mas essa interpretação ignora um fato fundamental: recuperar o evangelho anunciado pela Palavra e fazê-lo chegar a toda a Europa já constituía, por si só, um empreendimento missionário de enormes proporções. A imprensa, a tradução da Bíblia para as línguas locais e a colportagem, realizada por pessoas comuns que levavam porções das Escrituras de casa em casa, contribuíram para alfabetizar a população e colocar a Palavra ao alcance daqueles que jamais a haviam ouvido diretamente. Genebra tornou-se uma espécie de estaleiro de obreiros, preparando pessoas para servir muito além de suas próprias fronteiras.

Foi também dessa tradição espiritual que surgiram, mais tarde, os morávios. Como comunidade, eles se dedicaram de maneira extraordinária à missão, sustentados pelo voluntariado leigo e por uma vigília de oração que permaneceu ininterrupta por mais de cem anos. O período entre a Reforma e o século XVIII, portanto, não foi um retrocesso missionário, como às vezes se ensina. Foi uma verdadeira incubadora.

Foi dessa incubadora que surgiu aquilo que hoje chamamos de movimento missionário moderno. William Carey defendeu, com firmeza teológica, que a igreja deveria empregar meios concretos e organizados para cumprir a Grande Comissão, e não simplesmente orar e esperar. Dessa convicção nasceram as primeiras sociedades missionárias estruturadas em torno de três meios fundamentais: oferta, oração e agências de envio. A Sociedade Missionária de Londres, em 1795, a Sociedade Missionária da Igreja, em 1799, e a Sociedade Bíblica, em 1804, ajudaram a consolidar essa infraestrutura.

Ao mesmo tempo, o próprio Iluminismo, apesar das tensões que trouxe para a fé cristã, ofereceu à missão ferramentas até então inéditas, como a linguística, a cartografia, a medicina e a etnografia. A valorização da razão trazia riscos reais, mas, quando a igreja manteve a proclamação de Cristo como prioridade inegociável, essas ferramentas puderam ser colocadas a serviço do evangelho, em vez de substituí-lo.

Foi essa geração de sociedades missionárias que produziu pioneiros que ainda inspiram a igreja. Carey, chamado por muitos de pai das missões modernas, rompeu paradigmas ao partir para a Índia. Adoniram Judson perseverou durante décadas em Mianmar, apesar de perdas terríveis. Hudson Taylor adotou vestes e costumes chineses em busca de uma identificação genuína com a cultura que pretendia alcançar. David Livingstone uniu exploração, medicina e um clamor incansável contra o tráfico de escravos na África.

Também não se pode ignorar o papel decisivo das mulheres, frequentemente esquecido nos relatos tradicionais. Em muitas culturas, elas eram as únicas pessoas capazes de alcançar mulheres e crianças, justamente porque os homens missionários não tinham acesso a esses grupos. Nenhuma dessas histórias, portanto, é a história de heróis isolados. São histórias de uma igreja inteira, movida mais por corações rendidos do que por abundância de recursos.

O contraste entre essas duas fontes, o convés do navio colonial e a vigília de oração dos morávios, continua sendo um espelho útil para qualquer igreja avaliar sua própria motivação missionária. Precisamos perguntar com honestidade: nossa visão de missão espera que os outros se tornem culturalmente semelhantes a nós ou deseja que conheçam verdadeiramente a Cristo?

Uma igreja pode dar passos concretos nessa direção ao incluir missões em seu orçamento fixo, como uma oferta regular e alegre, e não apenas em campanhas emergenciais e isoladas. Pode também adotar, com oração constante e nominal, um missionário ou um campo específico, tratando a intercessão como uma verdadeira frente de batalha, e não como um apêndice do culto dominical. Assim, ainda hoje, a igreja pode recuperar o espírito daquela vigília que sustentou os morávios durante mais de um século.

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