Durante séculos, missão significou, na prática, um movimento de mão única: da Europa e da América do Norte para o restante do mundo. Essa imagem ainda molda o imaginário de muitos cristãos brasileiros, que continuam pensando em missões como algo que os de fora fazem pelos de dentro. Mas o mapa mudou, e mudou de tal maneira que a igreja precisa compreender essa transformação para não permanecer presa a uma geografia que já não existe.
A virada começou com os grandes avivamentos dos séculos XVIII e XIX. Os despertamentos que surgiram na Inglaterra, com Whitefield e Wesley, não produziram apenas fervor religioso. Eles despertaram líderes cristãos e leigos para sua responsabilidade pessoal no evangelismo mundial e contribuíram para sustentar espiritualmente a expansão missionária que viria nas décadas seguintes. No início do século XX, ocorreu uma segunda transformação, ainda mais profunda, com o movimento pentecostal. Ele ampliou radicalmente o grupo daqueles que podiam ser enviados e, sobretudo, favoreceu o surgimento da missão indígena: igrejas plantadas por pessoas da própria região, em vez de dependerem de estruturas importadas de fora. A missão deixou de ser algo simplesmente exportado e passou a nascer dentro das próprias comunidades alcançadas. Esse duplo movimento, formado pelo avivamento e pela indigenização, deslocou gradualmente o centro de gravidade do cristianismo mundial para o Sul Global. Campos que antes apenas recebiam missionários passaram também a se tornar centros de envio.
O século XX trouxe ainda ferramentas, marcos e estratégias que transformaram a maneira como a missão é realizada. A revolução tecnológica e, mais recentemente, a revolução digital abriram possibilidades de alcance e discipulado que antes simplesmente não existiam. As grandes ondas migratórias e o modelo dos fazedores de tendas, profissionais que levam o evangelho para onde seu trabalho os conduz, também se tornaram caminhos importantes da missão contemporânea. Eventos como a Conferência Mundial Missionária de Edimburgo, em 1910, e o Congresso de Lausanne, em 1974, contribuíram para consolidar uma consciência missionária global e compartilhada entre igrejas de diferentes partes do mundo. Organizações como a OM e a JOCUM demonstraram, na prática, que a missão é responsabilidade de toda a igreja, e não uma atividade reservada a especialistas. Ao longo desse período, os métodos mudaram, mas a mensagem permaneceu intacta. A missão deixou de significar apenas ir para lugares distantes e passou também a alcançar o mundo que chegou mais perto, por meio das migrações e da tecnologia.
Os desafios atuais estão diretamente ligados a essas transformações históricas. As guerras mundiais, o fim do colonialismo, as grandes ondas migratórias e o avanço do secularismo redesenharam novamente o mapa da missão. E um dos aspectos mais impressionantes dessa mudança pode ser percebido nos números: quatro das cinco maiores nações que hoje enviam missionários pertencem ao chamado Terceiro Mundo – China, Índia, Coreia do Sul e Nigéria –, enquanto os Estados Unidos ocupam uma das cinco primeiras posições. Essa realidade é conhecida como missão reversa e exige da igreja ocidental algo que nem sempre é confortável: estabelecer parcerias genuínas, sem reproduzir a antiga dependência de uma relação em que um lado se considerava exclusivamente responsável por dar, enquanto o outro apenas recebia.
Coreia do Sul, Brasil, a igreja perseguida em diferentes países, as periferias urbanas e a chamada Janela 10/40, faixa do globo que concentra grande número de povos não alcançados, estão entre os contextos que ajudam a definir essa nova realidade missionária. Em meio a todas essas transformações, porém, permanece uma verdade que atravessa toda a história: Deus sustenta sua igreja tanto em tempos de crise quanto de expansão e dirige soberanamente a missão, mesmo quando o mapa muda mais rapidamente do que a igreja consegue acompanhar.
Para a igreja brasileira, essa história não é um dado distante. Em grande medida, ela faz parte da própria história recente do nosso país. Por isso, precisamos perguntar com honestidade: nossa igreja ainda se enxerga como uma receptora passiva da fé que um dia veio de fora ou já se reconhece como uma igreja enviada, participante ativa dessa mudança do centro da missão para o Sul Global?
Um passo concreto é identificar e adotar em oração, ainda nesta semana, uma igreja ou um missionário do Sul Global, seja coreano, africano ou latino-americano, reconhecendo que a missão hoje parte de todos os lugares para todos os lugares. Outro passo é buscar deliberadamente receber e aprender com obreiros que vêm de fora do eixo missionário tradicional, e não apenas enviar. Apoiar de forma prática uma parceria missionária proveniente do Sul Global é reconhecer, na prática, que o mapa realmente mudou.
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