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Curso de Capacitação Missionária · Artigo 23/98

Cuidado Sem Sistema Não Protege Ninguém

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Boa vontade, sozinha, não sustenta o cuidado de um missionário durante anos no campo. Sem um sistema organizado, o cuidado tende a ser irregular: intenso logo depois de uma crise, mas esquecido meses mais tarde. Em alguns casos, pode até se tornar prejudicial quando depende exclusivamente da memória ou da disposição de uma única pessoa. Por isso, a igreja enviadora, a agência e a liderança de campo precisam atuar como partes de um mesmo sistema, com responsabilidades bem definidas, e não como expressões isoladas de boa vontade, na esperança de que ninguém seja esquecido.

A responsabilidade da igreja enviadora não termina no dia do envio. Depois de jejuar e orar, a igreja de Antioquia impôs as mãos sobre Paulo e Barnabé e os despediu (At 13.3), mas isso não encerrou a relação com aqueles que havia enviado. O pastoreio contínuo precisa perguntar pela pessoa, e não apenas pelos números do ministério. Da mesma forma, a supervisão de uma agência é saudável quando protege e apascenta, não quando controla ou domina. Políticas claras sobre férias, retornos temporários e procedimentos em situações de emergência reduzem a insegurança e protegem tanto quem serve quanto quem lidera. Afinal, cuidado sem ética não protege ninguém de fato; apenas transfere o risco para mais tarde, quando o custo de enfrentá-lo será maior.

Um sistema saudável também exige a definição de papéis que não deveriam ser concentrados em uma única pessoa. Mentoria, aconselhamento e cuidado com a saúde emocional envolvem competências diferentes, que o exercício pastoral, por si só, raramente contempla por completo. Tentar assumir todas essas funções simultaneamente sobrecarrega quem cuida e, ao mesmo tempo, limita o alcance e a qualidade do cuidado oferecido.

Confidencialidade, limites claros e confiança formam um mesmo alicerce ético. Nem tudo precisa ser conhecido por todos, e informações sensíveis devem circular apenas quando houver necessidade real, jamais por curiosidade ou hábito. A confiança, por sua vez, não nasce de uma promessa feita uma única vez. Ela é construída ao longo do tempo, por meio de um histórico consistente de discrição, responsabilidade e cuidado.

Esse sistema também precisa contar com uma rede estabelecida antes que a emergência aconteça, e não apenas depois que ela surge. O suporte emergencial deve ter um protocolo preparado com antecedência, incluindo contatos médicos e psicológicos previamente identificados, uma pessoa responsável por acionar essa rede e um caminho conhecido por quem precisar de ajuda. Uma rede bem articulada não enfraquece a fé de quem serve. Pelo contrário, expressa uma fé que reconhece a necessidade de ajuda e aceita recebê-la, lembrando que “o cordão de três dobras não se rebenta com facilidade” (Ec 4.12). Nenhum missionário deveria carregar sozinho um peso que três ou quatro pessoas poderiam compartilhar com ele.

Construir esse sistema é responsabilidade da igreja, não apenas da agência. O primeiro passo pode ser uma avaliação honesta: existe hoje, por escrito, uma política clara sobre férias e retornos temporários para os missionários enviados pela igreja, ou cada situação ainda depende de improviso? Existe alguém, além do pastor titular, com competência e disponibilidade reais para acompanhar de perto quem está no campo?

E, se você supervisiona algum missionário, marque ainda este mês uma conversa que não tenha como objetivo discutir relatórios ou resultados. Pergunte apenas como essa pessoa está e quem ela procuraria primeiro caso precisasse de ajuda em uma emergência.

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