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Curso de Capacitação Missionária · Artigo 20/98

Cuidar do Missionário é Mordomia, Não Gentileza

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Muitas igrejas tratam o cuidado do missionário como algo secundário, uma espécie de extra que pode ser oferecido quando, depois de arrecadar, enviar e divulgar, ainda restam tempo, energia ou recursos. A Bíblia, porém, não apresenta o cuidado dessa forma. Ela o trata como uma responsabilidade de mordomia diante de Deus. O missionário não pertence à igreja que o enviou; sua vida foi confiada por Deus aos cuidados dela. E o mordomo que negligencia aquilo que recebeu para administrar não é elogiado por ter cumprido apenas a parte mais visível de sua tarefa. Ele também terá de prestar contas.

As Escrituras deixam clara essa responsabilidade. Deus nunca exigiu fidelidade sem também prover sustento. Moisés conduziu o povo pelo deserto, mas não estava sozinho. Quando seus braços se cansaram durante a intercessão, Arão e Hur os sustentaram, um de cada lado, até o pôr do sol (Êx 17.12). Depois de confrontar os profetas de Baal, Elias chegou a um estado tão profundo de exaustão que pediu a Deus que lhe tirasse a vida debaixo de um zimbro. A resposta do Senhor não foi uma repreensão, mas o cuidado de um anjo que lhe trouxe pão e água e lhe permitiu descansar. Isso aconteceu duas vezes antes que viessem novas palavras ou uma nova missão (1Rs 19.4-8). Jesus enviou os discípulos dois a dois, nunca de maneira isolada, e também contou com mulheres que os sustentavam com seus próprios bens (Lc 8.1-3). Se o próprio Deus não separou chamado de provisão, nenhuma igreja deveria separar envio de cuidado.

Dois desvios comuns afastam a igreja dessa responsabilidade. O primeiro é o pragmatismo, que transforma o missionário em instrumento de resultados: relatórios, números de conversões, presença em determinado campo ou outros indicadores de desempenho. Ele deixa de ser visto como pessoa e passa a ser avaliado pelo que produz. Enquanto apresenta resultados, é valorizado. Quando se esgota, porém, pode ser substituído ou simplesmente esquecido, sem que ninguém pergunte quanto lhe custou continuar servindo.

O segundo desvio é a espiritualização do desgaste. Cansaço, solidão e crises passam a ser interpretados automaticamente como sinais de imaturidade ou falta de fé, como se aqueles que servem a Deus não pudessem experimentar sofrimento e fraqueza. Os dois desvios têm a mesma raiz: esquecer que o missionário continua sendo um vaso de barro. Ele carrega um tesouro que não lhe pertence, mas sua fragilidade permanece real (2Co 4.7).

Quando o cuidado é entendido como mordomia, sua estrutura também muda. A aula que introduz esta matéria apresenta cinco esferas que sustentam o missionário, e nenhuma delas é suficiente por si mesma. A primeira é o próprio Senhor, fonte última de sustento e perseverança. Reconhecer isso, porém, não elimina as demais esferas, porque Deus normalmente sustenta seus servos por meio de pessoas, e não à parte delas. A segunda envolve o autocuidado e o cuidado mútuo entre os próprios missionários. Ninguém serve bem isolado, e aquele que não possui outros missionários por perto perde referências que podem ajudá-lo a reconhecer sinais de alerta que talvez não perceba sozinho. A terceira esfera é a de quem envia: a igreja local, que deve oferecer acompanhamento pastoral contínuo, e não apenas suporte financeiro. A quarta é o cuidado especializado, necessário quando determinada situação exige competências profissionais que o acompanhamento pastoral, por si só, não possui. A quinta é o cuidado em rede, que conecta as quatro anteriores para que nenhuma delas funcione de maneira isolada.

Essa mordomia também não se resume a uma ação pontual. Ela é um processo contínuo que acompanha o missionário em quatro fases distintas: preparo, campo, transições e retorno. O preparo é decisivo para prevenir dificuldades futuras, porque hábitos, relacionamentos e vínculos estabelecidos antes do embarque podem sustentar o que virá depois. No campo, o cuidado precisa ser permanente, pois as pressões raramente surgem de uma só vez. Elas se acumulam gradualmente, muitas vezes sem serem percebidas. As transições são, ao mesmo tempo, uma das fases mais vulneráveis e mais negligenciadas, exigindo proximidade e flexibilidade que poucas vezes recebem. O retorno, por sua vez, pode ser mais delicado do que a própria partida. Em vez de uma comemoração apressada seguida de silêncio, muitas vezes requer acolhimento, escuta e tempo.

Se sua igreja enviou um missionário, essa mordomia já começou e continua acontecendo hoje. Ela não se limita ao dia do envio. Por isso, vale fazer uma revisão honesta: há quanto tempo alguém da liderança perguntou a esse missionário como ele está, sem concentrar a conversa apenas no que ele fez? Existe uma pessoa definida para acompanhar seu cuidado, ou tudo depende de quem se lembrar primeiro?

Um passo simples e concreto pode ser dado ainda esta semana: escolha pelo nome um missionário que sua igreja sustenta e envie-lhe uma mensagem perguntando apenas como ele está. Não peça relatório. Não cobre resultados. Apenas pergunte como ele está.

A mordomia começa exatamente aí: não necessariamente em grandes estruturas, mas em alguém que se lembra, pelo nome, daquele que foi enviado.

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