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Curso de Capacitação Missionária · Artigo 67/98

A Grande Omissão Começa Dentro da Igreja

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A omissão missionária raramente se manifesta como uma rejeição aberta à missão. Nenhuma igreja anuncia publicamente que abandonou o chamado de Cristo. A omissão acontece silenciosamente, nas decisões concretas do dia a dia: no orçamento que não contempla as missões de maneira planejada, no calendário que não reserva espaço regular para o tema e na liderança que fala bem sobre missões, mas não estrutura ações concretas.

Na prática, o pragmatismo e o imediatismo também redefinem o que a igreja entende por sucesso. Resultados visíveis e rápidos passam a substituir a fidelidade perseverante como critério de avaliação, mesmo que ninguém declare abertamente essa mudança.

Terceirizar a missão para agências e especialistas distantes fragmenta uma responsabilidade que deveria ser coletiva. A igreja deixa de agir como corpo envolvido e passa a assumir o papel de espectadora. Nesse sentido, a falta de compromisso não costuma surgir de uma decisão consciente e repentina, mas de uma lenta erosão de prioridades ao longo do tempo. Por isso, o problema não se resolve simplesmente com um novo programa, ainda que bem-intencionado e repleto de atividades. O que se exige é uma verdadeira conversão de prioridades, algo que nenhum evento pontual pode produzir por si só.

Essa miopia missionária é, sobretudo, uma distorção espiritual, não apenas geográfica. Ela reduz o horizonte da igreja àquilo que está próximo, é controlável e pode ser visto imediatamente. Argumentos pragmáticos costumam justificar essa redução: “precisamos cuidar de casa primeiro” ou “aqui os resultados aparecem mais rápido”. Porém, essa lógica confunde fidelidade com conveniência pessoal ou institucional. A busca por resultados rápidos aprofunda o desequilíbrio entre regiões já alcançadas e campos historicamente negligenciados, porque é sempre mais fácil investir onde os frutos aparecem primeiro. Em Isaías 49.6, Deus chama seu povo para ser luz para os gentios e levar a salvação até a extremidade da terra. Esse é um horizonte que a igreja não pode estreitar sem trair o próprio testemunho das Escrituras.

A falta de investimento financeiro na missão, por sua vez, também revela um discernimento espiritual fragilizado, e não apenas uma suposta escassez de recursos. Igrejas costumam investir com facilidade em estruturas visíveis, como prédios, equipamentos e eventos, enquanto a missão recebe o que sobra depois que todas as outras prioridades foram definidas. Sem planejamento, o sustento dos obreiros se torna instável e vulnerável às crises internas que eventualmente surgem. O mesmo acontece quando a oração missionária permanece genérica. A intercessão informada, feita com nomes, situações e contextos reais, fortalece tanto a fé de quem ora quanto a disposição de investir concretamente na obra.

Existe, porém, um risco igualmente sério no extremo oposto: o ativismo missionário. Ele pode nascer de uma sensibilidade genuína, mas transformar a ação social em substituta da missão e o serviço em substituto do testemunho pleno do evangelho. Quando a agenda de projetos ocupa o lugar da mensagem anunciada, a igreja perde sua singularidade e se torna apenas mais uma voz entre tantas organizações bem-intencionadas. Esse deslocamento também ocorre de maneira gradual. Nenhuma igreja decide, de uma só vez, abandonar a proclamação. Entretanto, um ativismo sem raízes espirituais desgasta os próprios obreiros e transforma aquilo que deveria ser fonte de vida em um fardo desumanizador.

Paulo advertiu que, mesmo que alguém falasse “línguas de homens e de anjos”, sem amor seria apenas “bronze que soa” (1Co 13.1). O remédio, portanto, não é abandonar o serviço concreto, mas restaurar o evangelho como centro de toda ação realizada.

Examine quanto do orçamento e do calendário de sua igreja é realmente dedicado à missão, e não apenas quanto o tema aparece em discursos ocasionais. Converse com um dos líderes sobre como sua igreja pode deixar de ser apenas mantenedora distante de determinado projeto e tornar-se corresponsável por ele, com acompanhamento e envolvimento reais. Avalie também um projeto social específico de sua igreja: ele ainda aponta claramente para Cristo ou, sem que ninguém perceba, já se tornou um fim em si mesmo, desconectado do anúncio explícito do evangelho?

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