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Curso de Capacitação Missionária · Artigo 68/98

Os Povos que Ainda Não Têm Quem Lhes Fale de Cristo

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Um povo não alcançado é aquele que não possui uma comunidade cristã autóctone capaz de evangelizar o próprio grupo. O critério técnico costuma considerar como referência a presença de até 5% de aderentes ao cristianismo e até 2% de evangélicos dentro daquele povo específico. A chamada janela 10/40, faixa que se estende entre os paralelos 10 e 40 ao norte do equador, concentra a maioria desses povos, muitos deles inseridos em contextos marcados pelo islamismo, hinduísmo e budismo. Nesses ambientes, converter-se pode significar perder vínculos familiares, colocar a própria segurança em risco e, em alguns casos, até perder a vida. Por isso, o crescimento da igreja costuma acontecer de maneira silenciosa. Ser invisível não significa estar ausente, mas apenas que o fruto nem sempre aparece em relatórios triunfalistas.

Nesses povos, a conversão frequentemente representa uma ruptura com a identidade coletiva, e não uma decisão privada e discreta que ninguém mais precisa conhecer. O custo social do discipulado é altíssimo, e o novo convertido pode enfrentar uma profunda solidão espiritual, afastado de tudo aquilo que antes lhe proporcionava pertencimento. A falta de tradução bíblica agrava ainda mais esse desafio. Quase mil línguas ainda não possuem nenhuma porção das Escrituras traduzida, e cerca de 1,5 bilhão de pessoas não têm acesso à Bíblia completa em seu próprio idioma materno. O erro recorrente é tratar essa realidade apenas como um problema técnico. No centro da questão está uma realidade humana e espiritual, e não apenas logística.

Os números também revelam um grave desequilíbrio na distribuição do esforço missionário mundial. Apenas cerca de 3% dos missionários atuam em contextos não alcançados, enquanto 97% permanecem em lugares onde já existe alguma presença cristã estabelecida. Esse cenário resulta da combinação de dois fatores. De um lado, estão as dificuldades logísticas, como acesso, custo e riscos. De outro, estão fatores emocionais, como o medo do desconhecido e a preferência por ambientes mais confortáveis. O despreparo alimenta o medo coletivo diante dos campos mais difíceis, e esse medo, por sua vez, perpetua o despreparo da geração seguinte. É um ciclo que só pode ser rompido por uma decisão deliberada. Confundir resistência espiritual com “solo infrutífero” é um erro de diagnóstico perigoso. A resposta não está simplesmente em enviar mais missionários, mas em redistribuir estrategicamente o esforço missionário.

Cerca de 42% da população mundial pertence a povos não alcançados, muitos deles vivendo em regiões de difícil acesso, onde a fragilidade estrutural torna a missão inseparável da própria sobrevivência cotidiana da população. Além disso, cerca de 80% do mundo aprende predominantemente por meio da oralidade. Isso exige que o discipulado leve essa realidade a sério, em vez de depender exclusivamente de materiais escritos. Na prática, as barreiras geográficas e linguísticas também colocam à prova a fidelidade missionária. Poucos campos exigem tanto da convicção da igreja quanto aqueles em que o progresso é lento, silencioso e difícil de mensurar em qualquer relatório anual.

Pesquise um povo não alcançado da janela 10/40. Descubra seu nome, sua região e sua religião predominante. A invisibilidade começa a ser vencida quando deixamos de lidar com números abstratos e passamos a conhecer pessoas e povos concretos. Ore especificamente por esse povo durante esta semana, pedindo que Deus levante obreiros dispostos a permanecer ali por anos, e não apenas a realizar visitas rápidas. Converse também com um líder de sua igreja sobre a possibilidade de redistribuir, e não apenas ampliar, o envio missionário que ela já pratica. Afinal, Deus, segundo Apocalipse, comprou com seu sangue pessoas de toda tribo, língua, povo e nação (Ap 5.9), e nenhuma dessas categorias deveria permanecer permanentemente esquecida pela igreja que leva o seu nome.

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