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Curso de Capacitação Missionária · Artigo 01/98

A Missão é de Deus

A Igreja é Enviada para Participar Dela

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Muitos cristãos falam de missões como se elas fossem uma das atividades da igreja. Há a música, a Escola Bíblica Dominical, o departamento de jovens, a assistência social e, em algum lugar da agenda, o departamento de missões. Essa maneira de pensar parece inofensiva, mas reduz profundamente o que a Bíblia ensina. Missão não é um projeto que a igreja criou para ajudar a Deus. Também não é uma opção piedosa para congregações que têm mais recursos, mais gente ou mais disposição. A missão pertence a Deus. A igreja existe porque Deus a chamou para participar daquilo que Ele mesmo está realizando no mundo.

A expressão missio Dei, que significa “missão de Deus”, aponta exatamente para essa verdade. Antes de haver missionários, igrejas, agências ou estratégias, há um Deus que toma a iniciativa de buscar pecadores. Depois da queda, não foi Adão quem correu para encontrar Deus; foi Deus quem chamou o homem: “Onde estás?” (Gn 3.9). Essa pergunta revela mais do que um julgamento. Revela um Deus santo que vem ao encontro de quem se esconde dele. Desde o início, a salvação não nasce do esforço humano, mas da graça soberana do Senhor.

O mesmo padrão aparece no chamado de Abraão. Deus não escolheu Abraão apenas para lhe dar uma descendência ou uma terra. A promessa incluía as famílias da terra: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.1-3). Israel foi separado entre as nações para que o nome do Senhor fosse conhecido entre as nações. Os profetas voltaram a lembrar esse propósito quando anunciaram que a salvação de Deus chegaria até aos confins da terra (Is 49.6). Portanto, a missão não é uma ideia recente nem uma preocupação restrita ao Novo Testamento. Ela está presente na própria história da redenção.

Essa missão alcança sua revelação plena em Jesus Cristo. O Pai enviou o Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por meio dele (Jo 3.16-17). Cristo veio buscar e salvar o perdido (Lc 19.10). Ele não foi apenas um mestre que ensinou um caminho religioso; foi o Salvador enviado pelo Pai para reconciliar pecadores consigo mesmo. Depois de cumprir sua obra na cruz e ressuscitar dentre os mortos, Jesus disse aos discípulos: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20.21). A igreja é enviada porque Cristo foi enviado antes dela.

Isso muda a pergunta que fazemos. Em vez de perguntar apenas: “O que nossa igreja pode fazer por missões?”, devemos perguntar: “Como nossa igreja pode obedecer ao Deus que está em missão?”. A primeira pergunta pode produzir orgulho, porque coloca a igreja no centro. A segunda produz humildade, porque reconhece que Deus é o autor da obra, que Cristo é o Senhor da seara e que o Espírito Santo é quem capacita o seu povo. Não somos donos da missão. Não controlamos os resultados. Não salvamos ninguém. Somos servos chamados a anunciar fielmente o evangelho e a obedecer àquele que nos envia.

Essa verdade também protege a igreja de duas distorções. A primeira é transformar missões em ativismo. Quando a missão é vista apenas como esforço humano, a igreja começa a medir fidelidade por números, campanhas e resultados rápidos. Mas Paulo afirmou que um planta, outro rega, e Deus é quem dá o crescimento (1Co 3.6-7). A segunda distorção é usar a soberania de Deus como desculpa para a omissão. Se Deus faz tudo, alguns pensam, então não há urgência em anunciar. Porém, o Deus que salva também ordena que o evangelho seja pregado. Ele usa homens e mulheres comuns como mensageiros de sua graça (Rm 10.13-15). A soberania de Deus não torna a igreja passiva; ela lhe dá coragem para obedecer.

Dizer que a igreja é da missão de Deus não significa desprezar a vida interna da congregação. Significa compreender para que ela é edificada. A igreja aprende a Palavra, ora, adora, disciplina, consola e forma discípulos para viver diante do mundo como testemunha de Cristo. Uma congregação voltada apenas para si mesma perde de vista o propósito pelo qual foi reunida. Uma igreja que conhece o Deus que envia não trata o mundo como uma ameaça da qual precisa fugir, mas como o campo onde Cristo deve ser conhecido (Mt 28.18-20).

Essa mudança de perspectiva pode começar de forma concreta e imediata. Uma igreja pode revisar, na próxima reunião de liderança, se sua oração pastoral e congregacional inclui as nações, não apenas as necessidades internas. Pode convidar, nos próximos meses, um missionário ou uma família enviada para contar, com detalhes, o que Deus tem feito no campo — não como evento isolado, mas como prática recorrente. Pode perguntar, na revisão do próximo orçamento, quanto do que arrecada realmente expressa a convicção de que a missão pertence a Deus e não apenas às boas intenções. Pequenos passos como esses já revelam se uma congregação está apenas falando sobre a missão de Deus ou começando, de fato, a participar dela.

Essa é uma questão que toda igreja local precisa encarar com seriedade. Nossa oração revela que desejamos ver o nome de Cristo conhecido? Nossa pregação apresenta o evangelho como boas-novas para todas as nações? Nosso amor pelos perdidos ultrapassa as paredes do templo? Essas perguntas não existem para produzir culpa passageira, mas arrependimento e obediência. A missão não é da igreja. A igreja é da missão de Deus. E quando compreendemos isso, deixamos de perguntar se missões cabem em nossa agenda. Passamos a perguntar se nossa agenda cabe no propósito de Deus.

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