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Curso de Capacitação Missionária · Artigo 07/98

A Missão Não Começa em Mateus 28

Ela Começa em Gênesis 1

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Quando a igreja fala sobre o fundamento bíblico das missões, é comum começar pela Grande Comissão, em Mateus 28. O texto é central e não pode ser ignorado. No entanto, tratá-lo como ponto de partida pode fazer com que algo fundamental passe despercebido: quando Jesus enviou seus discípulos a todas as nações, não estava inaugurando uma ideia nova. Estava levando adiante aquilo que Deus vinha anunciando havia milênios. O Antigo Testamento não é um prólogo neutro que só se torna missionário à luz do Novo Testamento. Ele já é, em si mesmo, um livro sobre a missão de Deus.

Isso começa na própria criação. Deus formou o mundo para que sua glória o enchesse, e o mandato de “enchei a terra e sujeitai-a” (Gn 1.28) não era apenas uma instrução relacionada à ocupação do mundo. Era também um chamado para que a humanidade espalhasse por toda a terra a presença e a glória do Criador. A Queda rompeu esse propósito, mas não o cancelou. Em meio ao julgamento sobre a serpente, Deus já apresenta a primeira promessa redentora (Gn 3.15), estabelecendo o fio que atravessará toda a Escritura até chegar à cruz.

Esse fio se torna explícito no chamado de Abraão. Deus não o escolheu apenas para lhe dar uma terra e um filho. A promessa tinha alcance global: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.3). Essa dimensão universal é repetida cinco vezes ao longo de Gênesis, uma ênfase deliberada demais para ser acidental. Séculos depois, Paulo lembraria aos gálatas que o evangelho já estava contido nessa promessa (Gl 3.8). A missão, portanto, não nasce com a igreja cristã. Ela começa quando Deus chama um homem a deixar sua terra e faz dele instrumento de bênção para todos os povos.

Israel recebeu essa mesma vocação. Ao tirar o povo do Egito, Deus lhe deu uma identidade que não apontava para o isolamento, mas para a representação: “Vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa” (Êx 19.6). O sacerdote existe para exercer um papel de mediação entre Deus e as pessoas. Israel deveria viver de tal maneira, em santidade e justiça, que as nações ao seu redor fossem atraídas ao Deus verdadeiro. Sua missão era, nesse sentido, mais centrípeta do que centrífuga. O povo não foi enviado a pregar em cada nação, mas chamado a viver de modo tão distinto que as nações perguntassem por que Israel era diferente.

A história, porém, revela o fracasso repetido desse povo. Israel absorveu a escuridão das nações em vez de ser luz para elas. Mas o fracasso do instrumento nunca significou o fracasso do plano de Deus. Em meio ao exílio e à desobediência, os profetas anunciaram uma nova aliança e apresentaram um Servo que cumpriria aquilo que Israel não conseguiu realizar (Is 49.6): “Eu te dei como luz para os gentios, para que a minha salvação vá até à extremidade da terra”. Jeremias, Ezequiel e Daniel, cada um à sua maneira, testemunham que a missão de Deus não depende da capacidade humana, mas da fidelidade do próprio Deus.

Essa dimensão missionária também não está restrita a alguns textos isolados. Ela atravessa todo o Antigo Testamento, em diferentes gêneros literários. Nos livros históricos, Raabe e Rute, duas estrangeiras, são acolhidas no povo de Deus e entram na linhagem do Messias. Naamã, o general sírio, e a rainha de Sabá são alcançados pelo testemunho de Israel. Mesmo no exílio, quando tudo parecia perdido, Ester mostra que Deus continua agindo nos bastidores da história das nações. Nos livros poéticos, os Salmos reúnem mais de cento e setenta e cinco referências à salvação universal: “Anunciai entre as nações a sua glória, entre todos os povos, as suas maravilhas” (Sl 96.3). Até Provérbios e Eclesiastes, ao apresentarem uma sabedoria dirigida à humanidade, preparam terreno para o encontro entre culturas diferentes. Os profetas, maiores e menores, insistem na mesma verdade. Joel anuncia que o Espírito será derramado sobre toda a carne (Jl 2.28-29); Jonas revela que o coração de Deus é maior do que o coração relutante de seus próprios mensageiros; e o último dos profetas encerra o Antigo Testamento com uma afirmação que já soa como um manifesto: “O meu nome é grande entre as nações, do nascente ao poente do sol” (Ml 1.11).

Quando Jesus, portanto, sobe ao monte na Galileia e ordena que seus discípulos façam discípulos de todas as nações, ele não está criando algo novo. Está revelando o alvo para o qual toda a Escritura, desde a criação, sempre apontou. A igreja que lê o Antigo Testamento apenas como pano de fundo histórico, ou como uma coleção de leis e narrativas morais, deixa de perceber a dimensão missionária do evangelho que já estava ali anunciada.

Essa compreensão também transforma a maneira como a igreja ensina as Escrituras. Ao preparar uma série sobre Gênesis, um estudo sobre os Salmos ou uma pregação expositiva em Isaías, é importante perguntar deliberadamente: onde está, neste texto, o coração de Deus pelas nações? Em um ministério com crianças ou jovens, a história de Rute, Naamã ou Jonas pode ser apresentada não apenas como exemplo moral, mas como evidência de que Deus sempre buscou alcançar aqueles que estavam de fora. Da mesma forma, uma igreja que deseja formar uma consciência missionária desde cedo pode revisar seu plano anual de leitura bíblica e incluir intencionalmente salmos como o 67 e o 96 como orações regulares pelos povos que ainda não conhecem a Cristo.

A missão não é apenas mais um capítulo da Bíblia. Ela revela o fio que percorre as Escrituras e ajuda a compreender o livro inteiro.

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