PT EN
Curso de Capacitação Missionária · Artigo 08/98

O Livro de Atos Ainda Não Terminou

← Voltar a Curso de Capacitação Missionária

O livro de Atos começa de uma maneira incomum para uma narrativa histórica: sem um final. Lucas registra a ascensão de Jesus, a formação da igreja, a expansão do evangelho por três continentes conhecidos e encerra a narrativa com Paulo pregando livremente em Roma, sem dizer o que aconteceu depois. Não se trata de um descuido literário. Atos é, deliberadamente, uma história inacabada, porque a missão que ele narra continua sendo escrita pela igreja em cada geração.

Tudo começa com uma promessa que funciona como o mapa teológico de todo o livro: “Recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins da terra” (At 1.8). Cada elemento dessa promessa encontra seu cumprimento nos capítulos seguintes. Primeiro vem o poder, não a estratégia, os recursos ou a habilidade retórica dos apóstolos, mas o Espírito Santo descendo sobre uma pequena comunidade amedrontada reunida em um cenáculo. Pentecostes não é apenas um acontecimento espetacular. É também a reversão de Babel. Em Babel, Deus confundiu as línguas e dispersou um povo orgulhoso; em Pentecostes, o Espírito capacita pessoas comuns a serem compreendidas em diferentes línguas, sinalizando que o evangelho pode atravessar qualquer cultura sem perder a sua verdade.

A partir desse momento, o Espírito Santo se torna o verdadeiro protagonista de Atos, e não os apóstolos. É ele quem chama Barnabé e Saulo durante um período de jejum e oração em Antioquia (At 13.1-3), redireciona Paulo quando este tenta ir para a Ásia e o conduz à Macedônia, abre para Cornélio uma porta que Pedro ainda não estava disposto a atravessar e sustenta os missionários em meio ao sofrimento. Mais tarde, Paulo escreveria confiando que a própria situação de prisão resultaria em sua salvação mediante a provisão do Espírito de Jesus Cristo (Fp 1.19). Em Atos, a missão nunca aparece como um projeto humano revestido de linguagem espiritual. Do princípio ao fim, ela é obra de Deus realizada por meio de um povo rendido a ele.

Essa obra avança geograficamente por etapas que exigem coragem cada vez maior. Jerusalém era o território conhecido; a Judeia representava um círculo mais amplo, mas ainda familiar; Samaria confrontava um preconceito histórico e étnico que os judeus preferiam evitar; e os confins da terra exigiam a travessia de fronteiras culturais que pareciam intransponíveis. Em cada etapa, a perseguição, que deveria ter sufocado a igreja, acabou empurrando os cristãos para fora de Jerusalém e contribuindo para que o evangelho avançasse ainda mais. Como resumiu certo pregador, o que a obediência não realiza, a perseguição faz. A missão não avançou apenas apesar das dificuldades; muitas vezes, avançou por meio delas.

Nesse cenário, duas igrejas se destacam como modelos que Lucas faz questão de apresentar. Antioquia foi a primeira grande igreja verdadeiramente enviadora. Firmada em ensino sólido e sensível à direção do Espírito, ela jejuou, orou e entregou dois de seus principais líderes à obra missionária, sem tentar retê-los por insegurança (At 13.1-3). Filipos, por sua vez, tornou-se símbolo de generosidade sacrificial. Era uma igreja pequena e pobre, mas sustentou Paulo com constância, não como quem oferece o que sobra, mas como quem reconhece a missão como parte da própria identidade da comunidade. Entre essas duas igrejas aparece também Paulo, homem convertido soberanamente no caminho de Damasco, que percorreu o mundo mediterrâneo adaptando sua maneira de comunicar sem jamais diluir o conteúdo do evangelho. Para ele, o sofrimento não era um obstáculo à missão, mas muitas vezes o próprio contexto em que o poder de Deus se manifestava com maior clareza.

Atos, porém, não é apenas a história dos nomes que conhecemos. Entre as linhas do capítulo 11 e nas saudações finais de Romanos 16, encontramos referências a dezenas de crentes que plantaram igrejas, hospedaram missionários e sustentaram a obra sem jamais aparecer nos livros de história. A missão cristã sempre foi construída, em grande parte, por pessoas sem nome, marcadas pela humildade, pela constância e pela disposição de servir nos bastidores, confiando que o Pai, que vê em secreto, haveria de recompensá-las (Mt 6.4).

Esse é o ponto central: Atos termina sem um final porque o período entre a primeira e a segunda vinda de Cristo é, ele mesmo, o tempo concedido para o testemunho (Mt 24.14). A urgência produzida por essa realidade não é ansiedade nem pressa irresponsável. É fidelidade contínua, geração após geração, até que o evangelho seja pregado a todas as nações.

Uma igreja que deseja se reconhecer dentro dessa história pode começar de maneira simples. Pode mapear, à luz de Atos, suas próprias quatro frentes de missão: sua Jerusalém, sua Judeia, sua Samaria e seus confins, identificando pessoas e lugares reais em vez de trabalhar apenas com conceitos abstratos. Pode também perguntar quem, dentro da congregação, poderia ser um dos anônimos de Atos 11: alguém que já serve nos bastidores, quase nunca é reconhecido e talvez precise apenas de uma palavra de encorajamento para perseverar. E pode avaliar se trata seus melhores membros como Antioquia tratou Barnabé e Saulo, estando disposta a entregá-los à obra de Deus, ou se, por insegurança, prefere retê-los para si. O livro de Atos não tem capítulo final porque o próximo capítulo é escrito pela igreja que o lê.

Quer conhecer melhor o trabalho do Projeto Didasko em Portugal?