É possível transformar a Grande Comissão em apenas mais uma data no calendário da igreja. Em determinado mês, promove-se uma conferência, recolhe-se uma oferta, convida-se alguém para compartilhar experiências do campo e, depois, a agenda volta ao normal. Essas iniciativas podem ser importantes, mas se tornam um problema quando nos levam a pensar que cumprir a Grande Comissão significa realizar um programa ocasional.
Em Mateus 28.18-20, porém, Jesus não entregou à igreja uma campanha ou um projeto temporário. Ele lhe deu uma ordem que define sua missão no mundo. A Grande Comissão não deve ocupar apenas um espaço na agenda da igreja. Ela deve influenciar toda a sua agenda.
As primeiras palavras de Jesus estabelecem o fundamento dessa missão: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18). A ordem de fazer discípulos não depende da capacidade da igreja, da receptividade das pessoas ou da estabilidade das circunstâncias. Ela repousa sobre a autoridade do Cristo ressuscitado. Aquele que foi crucificado venceu a morte e reina sobre todas as coisas. Por isso, a igreja não é enviada porque é forte, mas porque seu Senhor tem toda autoridade.
Essa autoridade também mostra que a Grande Comissão não é uma sugestão. Jesus ordenou: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28.19). A responsabilidade missionária não pertence apenas a pastores, missionários transculturais ou a uma minoria especialmente entusiasmada. É responsabilidade de todo o povo de Deus. Cada cristão participa da missão de acordo com os dons, as oportunidades e o lugar onde o Senhor o colocou, mas ninguém pode considerar a ordem de Cristo como algo distante de sua própria vida.
O centro da Grande Comissão é fazer discípulos. Esse ponto precisa ser recuperado porque, muitas vezes, a igreja se satisfaz com decisões rápidas, levantamentos de mão ou números de presença. Evangelizar é indispensável. O evangelho precisa ser anunciado com clareza, pois “como crerão naquele de quem nada ouviram?” (Rm 10.14). Mas Jesus não ordenou simplesmente que obtivéssemos respostas imediatas. Ele ordenou que fizéssemos discípulos. Isso significa chamar pessoas a seguir a Cristo, confessá-lo como Senhor e aprender a obedecer a tudo quanto Ele ordenou.
Por isso, a Comissão inclui batizar e ensinar (Mt 28.19-20). O batismo identifica publicamente o novo discípulo com Cristo e com seu povo, enquanto o ensino o conduz à maturidade. Discipulado exige tempo, Palavra, correção, comunhão, paciência e exemplo. Seu objetivo não é produzir admiradores ocasionais de Jesus, mas discípulos que aprendam a viver sob o seu senhorio. Uma igreja que anuncia sem ensinar deixa pessoas vulneráveis; uma igreja que ensina sem conduzir à obediência produz conhecimento sem transformação.
A expressão “todas as nações” revela também a abrangência da ordem. O evangelho não pertence a uma cultura, classe social ou povo específico. Cristo comprou para Deus, com seu sangue, pessoas de toda tribo, língua, povo e nação (Ap 5.9). A Grande Comissão, portanto, impede a igreja de se fechar em seu próprio círculo. Ela nos chama a olhar para o bairro onde vivemos, para a cidade em que servimos e para os povos que ainda têm pouco ou nenhum acesso ao evangelho. O campo começa perto, mas não termina perto. A ordem de Cristo atravessa fronteiras geográficas, culturais e sociais.
A duração da Grande Comissão também não pode ser ignorada. Jesus encerra sua ordem com uma promessa: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20). A missão não terminou com os apóstolos, nem perdeu sua importância à medida que o evangelho alcançou novos povos e continentes. Enquanto houver pessoas que não conhecem a Cristo, a igreja continuará sendo enviada. E ela não é enviada sozinha. A presença prometida de Jesus não elimina as dificuldades, mas sustenta seu povo no meio delas. Ele acompanha a igreja que obedece, fortalece os cansados e faz frutificar a semente segundo sua vontade.
Por isso, a Grande Comissão não pode ser colocada em uma gaveta da vida da igreja. Ela deve influenciar aquilo que pregamos, a maneira como formamos novos convertidos, os recursos que administramos e a visão que temos diante do mundo. Uma congregação pode ter muitos departamentos, atividades e programas e, ainda assim, perder de vista aquilo que Cristo ordenou. Quando isso acontece, a igreja se ocupa com sua própria manutenção, mas perde a alegria e a urgência de fazer discípulos.
A Grande Comissão não foi dada para aumentar a agenda da igreja. Foi dada para ordenar a agenda da igreja sob o senhorio de Cristo. Por isso, cada comunidade cristã precisa perguntar com honestidade: estamos apenas realizando eventos ou formando discípulos? Estamos anunciando o evangelho para aqueles que ainda não o conhecem ou apenas cuidando daqueles que já estão conosco? Estamos confiando em nossos programas ou na autoridade e na presença de Cristo?
Uma forma concreta de testar se a Grande Comissão realmente governa a agenda da igreja é perguntar o que acontece depois que alguém decide seguir a Cristo em um culto ou evento evangelístico. Existe um caminho claro de acompanhamento, discipulado e integração, ou a decisão se perde depois do primeiro contato? Vale também revisar o calendário de pregação dos próximos meses: as nações aparecem só na semana de missões ou o propósito de Deus para os povos atravessa o ensino ao longo do ano? E a liderança pode perguntar, com igual honestidade, se os recursos e o tempo da igreja refletem mais a manutenção de suas próprias atividades do que a ordem de ir, batizar e ensinar.
A Grande Comissão permanece. O Rei que possui toda autoridade ainda envia a sua igreja. Nossa resposta não deve ser apenas admirar suas palavras, mas obedecer ao seu mandamento: fazer discípulos de todas as nações, ensiná-los a obedecer a tudo quanto Ele ordenou e viver na certeza de que Cristo está conosco todos os dias (Mt 28.18-20).
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