Quando tudo é chamado de evangelismo – um post nas redes sociais, uma boa ação, um convite para o culto ou uma conversa gentil sobre a vida –, a igreja perde a capacidade de perceber quando, de fato, deixou de evangelizar. No Novo Testamento, evangelizar significa anunciar as boas novas cujo conteúdo específico é Cristo, sua morte e sua ressurreição. Essa mensagem exige necessariamente palavras. Uma vida cristã coerente abre portas e confere credibilidade ao testemunho, mas é a palavra que comunica o conteúdo do evangelho. Sem uma, ou sem a outra, a tarefa permanece incompleta.
Evangelização e discipulado, por sua vez, são distintos, embora complementares e igualmente necessários. Confundi-los produz duas falhas opostas. De um lado, todo ensino cristão passa a ser tratado como evangelismo, esvaziando o significado específico da proclamação. De outro, o evangelismo é reduzido a um evento isolado, sem qualquer relação com o crescimento posterior daquele que respondeu. O chamado ao arrependimento e à fé faz parte inseparável dessa proclamação. Não é um acréscimo opcional reservado a quem deseja ir mais fundo. Como escreveu John Stott, não há verdadeira pregação do evangelho quando se proclama o poder salvador sem apresentar os acontecimentos salvíficos, especialmente a cruz.
Cinco desvios comuns contribuem para esvaziar essa prática. Raramente, porém, eles nascem de má-fé. Em geral, surgem do desejo sincero de tornar a mensagem mais palatável. O primeiro é o decisionismo: tratar uma decisão pontual, tomada sob forte emoção, como prova suficiente de uma conversão genuína. O resultado são números inflados e, ainda mais grave, uma falsa segurança para quem respondeu sem compreender realmente o que estava aceitando. Ninguém tem o direito de oferecer a alguém uma certeza de salvação que Deus não lhe deu.
O segundo desvio ocorre quando a ação social é tratada como substituta da proclamação. A ação social e a evangelização são parceiras legítimas, mas nenhuma pode substituir a outra. Fazer o bem sem anunciar Cristo é caridade sem evangelho; anunciar Cristo sem fazer o bem é discurso sem testemunho.
O terceiro é o chamado evangelho da prosperidade, que apresenta um Cristo procurado principalmente pelo que ele pode dar, e não por quem ele é. A fé, nesse caso, é transformada em uma espécie de transação. O quarto desvio aparece quando os meios – música, produção e entretenimento – passam a ocupar o lugar da mensagem. O resultado pode ser uma forte impressão emocional, mas falta o confronto necessário com o pecado e com a cruz.
Além da distorção do conteúdo, existe também uma distorção sobre quem deve evangelizar. Em muitas igrejas, permanece a crença implícita de que evangelizar é tarefa de especialistas: pastores, evangelistas talentosos ou missionários vocacionados. Essa mentalidade transforma uma responsabilidade da identidade cristã em um programa administrado por poucos. A Grande Comissão, porém, foi dada à igreja. Ao longo da história, foram muitas vezes cristãos comuns, sem cargos formais, que mais contribuíram para espalhar o evangelho pelo mundo antigo. O dom de evangelista é concedido a alguns; o dever de evangelizar pertence a todos. Pedro chama toda a igreja de sacerdócio real e lhe atribui a missão de proclamar as virtudes daquele que a chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1Pe 2.9).
Antes de proclamar, porém, existe um passo que muitos negligenciam: escutar. Compreender a história, as dúvidas e as dores de uma pessoa cria espaço genuíno para a mensagem. Falar antes de ouvir costuma transformar a conversa em um discurso decorado, em vez de demonstrar cuidado real por alguém específico. O testemunho não é uma função que se assume ao entrar em um programa evangelístico. É a expressão natural de quem foi verdadeiramente transformado por Cristo.
Vale a pena, então, examinar o que sua igreja costuma chamar de evangelismo e identificar, com honestidade, o que realmente anuncia Cristo a quem ainda não crê e o que é apenas uma atividade social bem-intencionada, mas sem proclamação explícita do evangelho. Nesta semana, em uma conversa, diga claramente o nome de Jesus e fale sobre o que ele realizou na cruz, sem rodeios e sem depender apenas do exemplo silencioso. E, na próxima vez que conversar com alguém sobre fé, procure ouvir o dobro do que fala. Pergunte o que levou essa pessoa a se afastar de Deus e, depois, simplesmente escute a resposta até o fim.
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