Um departamento de missões pode ser muito útil para a igreja. Ele pode organizar informações, acompanhar ofertas, divulgar necessidades, promover a oração e auxiliar no relacionamento com missionários. O problema não está em existir uma equipe dedicada a essa área, mas em transferir para ela toda a responsabilidade missionária, como se o restante da igreja estivesse dispensado. Quando isso acontece, missões se tornam apenas mais um departamento da estrutura da congregação, em vez de expressarem aquilo que a igreja é.
Essa redução é bastante comum. A igreja possui departamentos para crianças, jovens, música, ensino e ação social. Então cria também o departamento de missões. Aos poucos, estabelece-se uma divisão: algumas pessoas cuidam dos missionários e das atividades missionárias, enquanto as demais cuidam dos outros assuntos da igreja. O problema é que as Escrituras não apresentam a missão como uma tarefa reservada a um grupo especializado. Cristo enviou sua igreja para fazer discípulos de todas as nações (Mt 28.18-20).
Ter um departamento de missões pode até produzir uma sensação de dever cumprido sem que exista uma verdadeira consciência missionária. Uma igreja pode realizar uma conferência missionária por ano, levantar uma oferta especial e publicar notícias de missionários sem que sua vida seja, de fato, orientada pela missão. Essas iniciativas são importantes, mas, se a vida cotidiana da congregação continua voltada principalmente para si mesma, o departamento pode apenas esconder um problema mais profundo. A igreja fala sobre missões, mas não aprende a viver como um povo enviado.
Uma igreja missionária não é simplesmente uma igreja que realiza mais atividades. É uma igreja que compreende por que existe. Ela sabe que foi reunida por Cristo, edificada pela Palavra e capacitada pelo Espírito para testemunhar de Cristo no mundo. O culto não é uma pausa na missão, mas o momento em que o povo de Deus se reúne para adorar, ouvir a Palavra, ser fortalecido e voltar ao seu campo de serviço. O discipulado não existe apenas para aumentar o conhecimento bíblico, mas para formar homens e mulheres que aprendam a obedecer a Cristo onde vivem. A comunhão também não deve ser um espaço de relacionamentos fechados, pois o próprio Jesus ensinou que o amor entre seus discípulos seria um testemunho diante do mundo (Jo 13.34-35).
Essa compreensão muda até mesmo as perguntas que a igreja faz. Em vez de perguntar apenas se haverá uma campanha missionária naquele ano, a congregação passa a avaliar se sua agenda, seus recursos, sua pregação e seu ensino estão ajudando os membros a viver para a glória de Deus e a testemunhar de Cristo. Em vez de considerar missões como uma necessidade distante, reconhece que cada discípulo é chamado a testemunhar, orar e servir, enquanto alguns são separados e enviados para contextos mais distantes. Missões deixam, então, de ocupar apenas uma gaveta na estrutura da igreja e passam a ser uma lente por meio da qual toda a vida da igreja é compreendida.
Essa visão não diminui a importância da edificação da igreja. Pelo contrário, dá propósito a ela. As crianças precisam ser ensinadas a conhecer e anunciar o evangelho. Os jovens precisam ser discipulados para seguir a Cristo e não se conformar com os valores deste mundo. A música deve conduzir a congregação à adoração daquele que deve ser anunciado entre as nações (Sl 96.3). O ensino bíblico deve formar cristãos que compreendam a história da redenção e o lugar da igreja dentro dela. Cada ministério mantém sua função, mas deixa de atuar como um setor isolado e passa a cooperar com a vocação que pertence a toda a igreja.
O livro de Atos mostra que essa integração não é apenas um ideal. A igreja de Antioquia crescia no ensino, na comunhão, na adoração e no serviço. Foi nesse contexto de vida comunitária que o Espírito Santo separou Barnabé e Saulo para uma obra específica. A igreja jejuou, orou, impôs as mãos sobre eles e os enviou (At 13.1-3). O envio não surgiu de um departamento independente nem de uma decisão particular. A própria comunidade reconheceu o chamado, participou do envio e, posteriormente, recebeu os missionários para ouvir o relato daquilo que Deus havia realizado (At 14.26-28). Antioquia era uma igreja missionária porque sua própria vida como igreja produzia e sustentava o envio.
Passar de um departamento de missões para uma identidade missionária não significa abandonar a organização. Significa colocá-la no lugar correto. Uma equipe de missões pode servir muito bem à igreja, mas não pode substituir a igreja. Sua função é ajudar a liderança a informar, mobilizar, acompanhar missionários, estimular a oração e manter viva a consciência missionária. Quando a equipe assume tudo sozinha, os demais membros tornam-se espectadores. Quando ela trabalha para envolver toda a congregação, torna-se uma importante ferramenta para cumprir a vocação da igreja.
Também não precisamos transformar essa mudança em mais uma coleção de programas. Muitas igrejas já estão sobrecarregadas com atividades e reuniões, sem necessariamente compreender o propósito de tudo o que fazem. A resposta não é acrescentar mais uma campanha, mais uma reunião ou mais uma cobrança. É necessário olhar para aquilo que a igreja já faz e perguntar se essas atividades estão cumprindo sua finalidade. Nossa pregação forma um povo enviado? Nossa oração inclui as nações? Nosso discipulado prepara os crentes para testemunhar? Nosso orçamento demonstra compromisso com o avanço do evangelho? Essas perguntas podem ajudar a igreja a reorganizar suas prioridades sem transformar a missão em mais um peso institucional.
Na prática, essa mudança pode começar com uma conversa simples entre a liderança e a equipe ou comissão de missões da igreja: em vez de perguntar apenas o que o departamento de missões vai fazer este ano, perguntar como cada ministério já existente — crianças, jovens, discipulado, música — pode expressar, à sua maneira, a vocação missionária de toda a igreja. Vale também revisar se os responsáveis por missões têm acesso direto à liderança pastoral e ao púlpito, ou se atuam isolados, sem voz na vida mais ampla da congregação. Um departamento bem integrado é aquele que ajuda a igreja inteira a se lembrar de quem ela é, não aquele que carrega essa lembrança sozinho.
Missões deixam de ser apenas um departamento quando a igreja compreende novamente que pertence a Cristo e existe para tornar conhecido o seu nome. A congregação não foi chamada simplesmente para preservar sua estrutura, satisfazer preferências internas ou manter suas atividades. Foi chamada para viver para Deus e testemunhar de Cristo no mundo. Um departamento pode auxiliar nessa tarefa, e deve fazê-lo. Mas a missão não pertence a um departamento. Ela pertence à igreja. Quando toda a congregação entende essa verdade e coloca seus dons, recursos, oração e vida a serviço do evangelho, a igreja deixa de apenas falar sobre missões e passa a viver como um povo enviado, testemunhando de Cristo até aos confins da terra (At 1.8).
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