Existe uma frase de Jesus que já trouxe profunda angústia a muita gente sincera: quem blasfemasse contra o Espírito Santo não teria perdão, “nem neste século, nem no futuro” (Mt 12.32). Cristãos que amam a Deus, que tiveram um pensamento ruim num momento de raiva ou desespero, já viveram meses preocupados com a possibilidade de terem cruzado uma linha sem volta. Mas o contexto muda tudo: Jesus disse isso diante de fariseus que viram, com os próprios olhos, um milagre feito pelo poder do Espírito Santo e, mesmo assim, deliberadamente chamaram aquela obra de demoníaca. Não se trata de uma dúvida sincera nem de uma palavra dita sob pressão, mas de uma rejeição consciente e persistente da verdade já conhecida, de um endurecimento do coração que se recusa a se arrepender. É a diferença entre tropeçar e se levantar arrependido e escolher, dia após dia, permanecer de costas para a verdade já conhecida, sem disposição para se voltar para Deus.
É exatamente aqui que está o consolo. Charles Spurgeon, ao lidar com pessoas genuinamente angustiadas por essa possibilidade, disse: “se vocês têm algum temor a esse respeito, não cometeram esse pecado que é para a morte, pois até o temor é sinal de vida”. A lógica é simples: quem realmente endureceu o coração contra o Espírito não está buscando a Deus nem desejando arrepender-se. A própria preocupação de tê-lo ofendido já revela o contrário: uma indiferença real à verdade não se incomodaria com essa possibilidade. Aquele que deseja honrar a Deus e se entristece diante da possibilidade de tê-lo ofendido não se encontra na mesma condição daqueles que, conscientemente, rejeitaram a obra do Espírito. Essa preocupação, por isso, deve ser levada abertamente a Deus em oração, e não carregada sozinha e em silêncio.
Para quem creu em Cristo, a Escritura oferece ainda outra segurança: “fostes selados com o Espírito Santo da promessa, o qual é o penhor da nossa herança” (Ef 1.13-14). Selar significa marcar, confirmar e garantir. No mundo antigo, um selo autenticava um documento, identificava uma propriedade e protegia contra violação. É justamente isso que o Espírito faz em quem crê: identifica o crente como propriedade de Deus e garante, como penhor, que a herança prometida será recebida por completo. Esse selamento acontece uma única vez, no instante em que a fé se firma, e não precisa, nem deve, ser repetido.
Cristãos fiéis divergem sobre o que esse selo garante em relação à perseverança final. Para uns, ele assegura que quem verdadeiramente pertence a Cristo será preservado até o fim, mesmo atravessando períodos de dúvida; para outros, a mesma promessa deve ser considerada ao lado das muitas advertências bíblicas contra o abandono da fé, e a perseverança continua sendo responsabilidade de quem crê. É um debate antigo, e este não é o lugar para encerrá-lo. Mas vale guardar o que une as duas leituras: o selo do Espírito nunca é licença para o pecado. É chamado à santidade, um convite a levar a sério, todos os dias, a fé que Deus selou em nós.
E há uma terceira palavra, diferente das outras duas: enquanto o selo acontece uma única vez, a plenitude do Espírito é uma ordem renovada continuamente. Paulo escreve: “não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito” (Ef 5.18). O verbo, no grego, está no presente contínuo e no plural. Não é uma experiência reservada a alguns cristãos mais avançados, mas um chamado dirigido a toda a igreja, continuamente. No dia de Pentecostes, todos ficaram cheios do Espírito; pouco depois, os mesmos discípulos foram novamente cheios ao orarem diante da perseguição. Não é um troféu conquistado uma única vez, mas uma realidade que se manifesta continuamente na vida cristã: buscar a Cristo com sinceridade, confessar o pecado com honestidade, submeter-se à Palavra e deixar-se guiar pelo Espírito em cada decisão do dia. Estêvão, prestes a ser apedrejado, foi sustentado dessa mesma forma: cheio do Espírito, fitou os olhos no céu e viu a glória de Deus. Não foi a ausência de sofrimento, mas a presença de Deus que o sustentou por dentro exatamente quando mais precisava.
Três palavras, um só Espírito: a preocupação de tê-lo ofendido já é, em si mesma, evidência de que a indiferença a Deus não está presente. Para quem já creu em Cristo, o selo já colocado é uma marca que ninguém pode apagar. E a mesma plenitude que sustentou os primeiros discípulos continua sendo o chamado que Deus renova a cada dia, não uma experiência reservada a poucos. Nenhuma dessas três verdades foi dada para atormentar quem ama a Deus, mas para sustentar com firmeza aqueles que caminham com Ele todos os dias.
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