Paulo escreveu a Timóteo que “toda a Escritura é inspirada por Deus e proveitosa para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (2Tm 3.16). Por trás de cada palavra da Bíblia que você já leu está a mesma Pessoa: o Espírito Santo, que conduziu os autores humanos a escrever exatamente o que Deus queria comunicar. Mas sua obra não terminou quando a última palavra do Novo Testamento foi registrada. É esse mesmo Espírito quem, ainda hoje, ilumina o nosso entendimento para compreendermos aquilo que já foi revelado. É por isso que a Bíblia não é apenas um livro antigo entre tantos outros, mas a Palavra de Deus que continua falando ao seu povo. Do primeiro capítulo de Gênesis ao último capítulo do Apocalipse, não há um único livro que tenha escapado a essa mesma atuação divina.
Pedro explica a origem das Escrituras: “nunca a profecia foi produzida por vontade de homem, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2Pe 1.21). Isso não significa que Moisés, Davi, Isaías e os demais escritores tenham sido instrumentos passivos, como uma caneta nas mãos de outra pessoa. Cada um escreveu usando seu próprio vocabulário, estilo e personalidade. Ainda assim, por trás de cada escritor humano havia um único Autor divino, garantindo que aquilo que fosse registrado correspondesse exatamente ao que Deus queria dizer ao seu povo. Perto do fim de sua vida, o próprio Davi resumiu essa dinâmica ao afirmar que o Espírito do Senhor falava por seu intermédio e que a palavra de Deus estava em sua língua. Não porque Davi decidisse, por conta própria, o que escrever nos salmos, mas porque o Espírito se servia de sua voz, de sua história e até de seu sofrimento para comunicar exatamente o que precisava ser dito.
Ser inspirada e ser compreendida, porém, não são a mesma coisa. É por isso que o Espírito também ilumina. A inspiração aconteceu uma única vez, quando cada livro foi escrito. A iluminação acontece hoje, sempre que alguém abre a mesma Bíblia e pede que o Espírito lhe conceda entendimento. Paulo descreve essa segunda obra: “nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus, para que possamos conhecer o que ele nos deu gratuitamente” (1Co 2.12). Sem essa atuação, nenhuma mente humana consegue alcançar, por si mesma, aquilo que pertence a Deus. Não é apenas uma questão de inteligência, mas da existência de um véu que somente o próprio Espírito pode remover. Há, porém, um limite importante nessa iluminação: ela nunca acrescenta uma única palavra ao que já foi escrito. Sua função é abrir nossos olhos para enxergarmos aquilo que Deus já revelou.
Isso jamais serviu de desculpa para a negligência na leitura e no estudo das Escrituras. Os cristãos de Bereia foram elogiados justamente por manterem esse equilíbrio: “receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias, para ver se estas coisas eram assim” (At 17.11). Depender da ajuda do Espírito nunca dispensou ninguém de estudar o texto com cuidado, considerar seu contexto e agir com humildade diante daquilo que ele realmente diz. O estudo diligente e a dependência do Espírito não competem entre si. Pelo contrário, quem realmente depende dele para compreender a Palavra tende a se dedicar ainda mais atentamente ao exame das Escrituras.
Essa mesma combinação deve sustentar aqueles que pregam e ensinam. Paulo lembrava aos coríntios que sua pregação “não consistiu em palavras persuasivas de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria de homens, mas no poder de Deus” (1Co 2.4-5). Isso não significa desprezar a preparação cuidadosa, mas não confundir a eficácia espiritual de uma mensagem com a habilidade retórica de quem a proclama. Até mesmo o sermão mais bem elaborado continua sendo palavras humanas se não houver a atuação do Espírito. Um pregador pode possuir conhecimento, dominar o texto e preparar-se com extrema dedicação, mas, sem a ação do Espírito, seu trabalho não terá, por si só, o poder de transformar uma vida.
Na próxima vez que você abrir a Bíblia, comece pedindo iluminação antes da leitura, e não apenas quando encontrar alguma dificuldade. Examine o texto como os bereanos fizeram: com avidez e cuidado, sem aceitar uma interpretação simplesmente porque parece convincente. E, se você ensina ou prega, prepare-se com toda a seriedade que essa tarefa exige, mas nunca confie apenas em seu preparo. Peça também a atuação daquele que, sozinho, pode tornar essa Palavra viva e eficaz no coração de quem a ouve. O mesmo Espírito que inspirou cada página das Escrituras é quem continua, ainda hoje, iluminando seu sentido e tornando-a poderosa no coração de quem a recebe. Confiar na Bíblia não é um ato de ingenuidade, mas reconhecer que, por trás de cada linha, sempre esteve e continua estando a mesma Pessoa divina.
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