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Curso Interdenominacional de Teologia · Artigo 17/19

Um Só Corpo, Muitos Membros

A Unidade que o Espírito Cria

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O que exatamente transforma um grupo de pessoas tão diferentes entre si, com idades, histórias, classes sociais e até convicções distintas sobre assuntos secundários da fé, em uma só igreja? Não é a simpatia natural entre os membros, nem a organização da instituição, nem os interesses em comum. Paulo aponta para Alguém específico: “em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo... e a todos nós foi dado beber de um só Espírito” (1Co 12.13). Não é a nossa vontade, nem o nosso esforço que nos torna parte desse corpo, mas a ação do próprio Espírito de Deus. Aquilo que realmente une os cristãos de uma igreja não é terem nascido na mesma cidade, terem a mesma idade ou gostarem das mesmas coisas. É terem recebido o mesmo Espírito. Sem essa origem espiritual comum, qualquer união entre cristãos ficaria reduzida a uma simples associação humana, sujeita às mesmas fragilidades de qualquer outro grupo de pessoas.

Essa unidade, porém, não elimina a diversidade entre os membros. “O corpo não é um só membro, mas muitos” (1Co 12.14), escreve Paulo, usando a imagem do corpo humano justamente para mostrar como a diversidade serve à unidade, em vez de competir com ela. O mesmo Espírito que distribui dons diferentes a cada pessoa é quem os integra em um único corpo, no qual cada parte contribui para o bem de todas as outras. Ele não trabalha apagando a sua personalidade, a sua história ou os seus dons. Ele trabalha transformando essas diferenças em serviço mútuo dentro de um mesmo corpo. Reconhecer essa diferença evita dois erros comuns: tratar qualquer discordância como ruptura da unidade ou usar a diversidade como desculpa para o egoísmo dentro do corpo.

O Novo Testamento também descreve a igreja como templo, não cada crente isoladamente, mas a comunidade reunida. Paulo pergunta aos coríntios: “não sabeis que sois santuário de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Co 3.16). O pronome, no grego, está no plural: Paulo fala da igreja de Corinto reunida, não de cada pessoa em separado. Existe, então, uma morada pessoal do Espírito em cada um de nós, como já vimos ao estudar a regeneração, e existe também uma morada coletiva dele no meio do seu povo reunido. É por isso que negligenciar a vida em comunidade empobrece a experiência cristã: parte da presença de Deus se manifesta de um modo que só acontece quando o seu povo está junto.

Esse mesmo Espírito também preserva a unidade da igreja. E aqui está um detalhe que muda tudo: essa unidade não é uma meta distante que a igreja precisa alcançar algum dia. “Há somente um corpo e um Espírito” (Ef 4.4). Ela já existe, como resultado da própria obra de Deus. O que resta à igreja não é fabricar essa unidade do zero, mas preservá-la na convivência diária. E unidade não é uniformidade. Uma igreja saudável não é aquela em que ninguém discorda de nada, mas aquela em que as discordâncias legítimas não rompem o vínculo que o próprio Espírito já estabeleceu.

A prova mais forte dessa unidade é que ela atravessa até as hostilidades mais antigas. No templo de Jerusalém, havia uma parede física separando judeus de gentios, dois povos historicamente inimigos. Paulo escreve que, por meio de Cristo, “ambos temos acesso ao Pai em um Espírito” (Ef 2.18). A parede foi derrubada, e dois povos que se odiavam se tornaram um só. Se o Espírito uniu judeus e gentios depois de séculos de hostilidade, ele também sustenta a unidade dentro da sua própria igreja, por mais diferentes que sejam os seus membros hoje. Essa unidade, aliás, é um dom da própria Trindade: foi Cristo quem tornou possível o acesso ao Pai, e é o Espírito quem produz e sustenta essa comunhão entre os que creem. Um só corpo, um só Espírito, um só Senhor, uma só fé, um só Deus e Pai de todos.

Da próxima vez que você participar de um culto, reconheça conscientemente que Deus está presente ali, no meio do seu povo reunido, e não apenas em você individualmente. Identifique um dom seu que pode servir à edificação de alguém ao seu lado e coloque-o em prática, mesmo que de forma simples. Diante da próxima diferença de opinião, temperamento ou tradição dentro da sua igreja, pergunte-se com honestidade: estou tratando isso como motivo de divisão, quando poderia vivê-lo como parte da diversidade que o próprio Espírito usa para edificar o mesmo corpo? Uma igreja não precisa que todos pensem igual para ser una. Precisa apenas guardar, com humildade e amor, aquilo que o Espírito já uniu.

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