PT EN
Curso Interdenominacional de Teologia · Artigo 18/19

Sobre os Dons do Espírito

O que Realmente Nos Une

← Voltar a Curso Interdenominacional de Teologia

Paulo escreveu que os dons de profecia, línguas e ciência um dia haveriam de cessar, “quando vier o que é perfeito” (1Co 13.10). Essa única expressão já deu origem a um dos debates mais duradouros do mundo evangélico: seria o fechamento do cânon das Escrituras, de modo que certos dons já teriam cessado no primeiro século? Ou seria a volta de Cristo, de modo que esses dons continuam disponíveis até hoje? Cristãos igualmente sinceros, que amam a mesma Bíblia e servem ao mesmo Senhor, leem esse texto e chegam a conclusões diferentes. Chamamos de continuísmo a posição de quem defende que os dons extraordinários, como profecia, línguas e cura, continuam à disposição da igreja hoje; e de cessacionismo a posição de quem defende que esses dons específicos cumpriram o seu papel no primeiro século.

Antes de olhar para as posições em si, vale fixar o que nenhuma delas contesta: a personalidade e a divindade do Espírito Santo, sua participação plena na Trindade e sua atuação indispensável na igreja. Essa divergência não ocupa o mesmo nível de doutrinas centrais como a Trindade ou a autoridade das Escrituras. Ela pertence ao território que uma fórmula antiga resume bem: no essencial, unidade; no não essencial, liberdade; em tudo, caridade. Discordar nesse ponto não torna ninguém menos irmão. A igreja não é lugar para disputas sobre questões secundárias, mas campo fértil para o exercício do amor fraternal, e poucos temas testam essa convicção tanto quanto este.

De um lado, cristãos cessacionistas entendem que os dons extraordinários, como profecia, línguas e cura, estavam ligados à fundação da igreja, confirmando a mensagem dos apóstolos enquanto o Novo Testamento ainda estava sendo formado. Com o cânon já completo, esses dons teriam cumprido o seu papel. Do outro lado, cristãos continuístas entendem que nada no texto bíblico indica claramente esse encerramento e leem “o que é perfeito” como a consumação que só chega com a volta de Cristo. Nesse momento, nas palavras do próprio Paulo, deixaremos de “ver como em espelho, obscuramente” e passaremos a “ver face a face” (1Co 13.12). Os dois lados recorrem a textos reais, tradições respeitáveis e teólogos sérios. Nenhum deles nasce de descuido com a Palavra. Entre esses dois polos, muitos cristãos ocupam posições intermediárias: reconhecem que Deus continua livre para agir sobrenaturalmente, se quiser, sem esperar isso como algo normativo; outros defendem a continuidade dos dons sem adotar toda a doutrina de uma tradição específica sobre como eles devem operar.

Independentemente da posição que você sustente, o Novo Testamento oferece três critérios para avaliar qualquer manifestação espiritual, ontem ou hoje. O primeiro é a ordem: “Deus não é Deus de confusão, senão de paz” (1Co 14.33), e “tudo se faça com decência e ordem” (1Co 14.40). Qualquer manifestação que produza caos generalizado já falha nesse primeiro teste. O segundo é a edificação: “tudo seja feito para edificação” (1Co 14.26). Não perguntamos apenas se algo impressiona, mas se torna a igreja mais firme na fé. O terceiro é a centralidade de Cristo: toda obra genuína do Espírito aponta para Jesus, nunca para si mesma, para um pregador ou para a própria experiência.

Vale lembrar, também, que uma reação física forte, como lágrimas, tremor ou emoção intensa, não prova nem invalida, por si só, a presença do Espírito. O teólogo Jonathan Edwards, ao lidar com fenômenos semelhantes há quase três séculos, já ensinava que o verdadeiro teste está no fruto que permanece depois que a emoção passa: mais humildade, mais obediência e mais amor ao próximo. E a regra mais segura de todas continua sendo examinar a experiência à luz da Escritura, nunca reinterpretar a Escritura à luz da experiência de alguém. Quando uma manifestação é tratada como revelação superior à própria Escritura, ou quando desloca Cristo do centro para exaltar uma pessoa, um ministério ou a sensação que ela provoca, algo já saiu do rumo que o próprio Espírito estabeleceu para sua obra.

Se você já discutiu esse assunto com alguém de tradição diferente da sua, talvez tenha sentido a tentação de tratar a divergência como prova de menos fé do outro lado. Resista a ela. Da próxima vez que o tema surgir, converse com quem pensa diferente sem a necessidade de convencer nem de sair convencido. Lembre-se do que, de fato, une pentecostais, cessacionistas e todos os que estão no meio: o Espírito Santo habita em todo crente, os dons existem para servir à igreja, e tudo o que fazemos deve ser regido pelo amor. Nisso, não há divergência nenhuma.

Quer conhecer melhor o trabalho do Projeto Didasko em Portugal?