Ninguém, ao acordar hoje, decidiu se faria ou não teologia. Essa decisão foi tomada há muito tempo, no dia em que aprendemos a orar, a cantar um hino ou a explicar a um filho por que Deus permite o sofrimento. Toda vez que alguém fala sobre Deus, o pecado ou a salvação, já está fazendo teologia, bem ou mal, de maneira consciente ou não. A questão nunca foi se teremos uma teologia, mas se ela será fiel às Escrituras ou se será formada por fragmentos de ideias ouvidas ao longo da vida, muitas vezes equivocadas justamente nos pontos que mais importam para esta vida e para a eternidade.
Em sua origem grega, a palavra teologia está relacionada ao conhecimento e ao discurso acerca de Deus. No contexto cristão, trata-se do estudo sistemático de Deus e de tudo o que Ele revelou a respeito de si mesmo, de sua criação, da salvação e de seu propósito para todas as coisas. Essa definição aponta para três elementos fundamentais. A fonte é aquilo que Deus revelou. O estudo é realizado sob a direção do Espírito Santo. E o objetivo é conhecer a Deus e viver para a sua glória. Quando qualquer um desses elementos é abandonado, o estudo teológico perde sua finalidade e pode transformar-se em especulação, orgulho intelectual ou simples acúmulo de conhecimento sem verdadeira adoração.
As Escrituras não apresentam todas as verdades de maneira sistematizada, como faria um dicionário ou um manual de conceitos. Elas contêm história, poesia, profecia, sabedoria, Evangelhos, cartas e outros gêneros literários, e muitas vezes o ensino sobre determinado assunto está distribuído por diferentes livros e períodos da história bíblica. Reunir essas verdades, respeitando seus contextos e sem acrescentar ao que Deus revelou aquilo que Ele não revelou, é uma das tarefas da teologia sistemática. Seu propósito é correlacionar o conjunto do ensino bíblico para apresentar, com a maior fidelidade possível, o que as Escrituras ensinam sobre cada doutrina. É justamente aqui que surge um dos erros mais comuns e perigosos: retirar um versículo de seu contexto para sustentar uma ideia que já havíamos decidido defender antes de examinar as Escrituras. A Palavra de Deus deve regular a nossa teologia, e não o contrário. Nenhuma tradição, por mais respeitada que seja, nem qualquer interpretação, por mais popular que se tenha tornado, está acima do ensino das Escrituras corretamente compreendido em seu conjunto. Paulo lembrou a Timóteo que “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.16-17).
Diante da grandeza de Deus, surge uma pergunta legítima: como uma criatura finita pode conhecer verdadeiramente um Deus infinito? As Escrituras nos conduzem entre dois extremos. Por um lado, jamais conseguiremos compreender Deus de maneira exaustiva, pois Ele é infinito e nós somos criaturas limitadas. Por outro, nossa limitação não significa que estejamos condenados à ignorância. Paulo descreve nossa condição presente ao afirmar que “agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido” (1Co 13.12). Conhecer em parte é reconhecer que nosso conhecimento, embora limitado, é verdadeiro. Moisés expressou esse mesmo equilíbrio ao declarar: “As coisas encobertas pertencem ao SENHOR, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos, para sempre, para cumprirmos todas as palavras desta lei” (Dt 29.29). O que Deus decidiu ocultar não foi revelado para satisfazer nossa curiosidade; aquilo que Ele revelou é suficiente para orientar nossa fé, nossa vida e nossa obediência.
Deus se dá a conhecer por meio da revelação geral e da revelação especial. A revelação geral é o testemunho que Ele deixou na criação e que alcança todos os seres humanos. “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Sl 19.1). Paulo também afirma que “os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Rm 1.20). Esse testemunho é verdadeiro e universal, mas possui limites. A criação revela que existe um Deus poderoso e que o ser humano lhe deve honra, mas não apresenta, por si mesma, a mensagem completa da redenção. Ela aponta para o Criador, mas não revela o caminho da salvação em Cristo. Mostra a grandeza de Deus, mas não anuncia plenamente como o pecador pode ser reconciliado com Ele.
Essa revelação mais específica é chamada de revelação especial, por meio da qual Deus se manifesta de maneira particular na história da redenção, nas Escrituras e, de forma suprema, na pessoa de Jesus Cristo. O autor de Hebreus resume essa progressão ao declarar: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho” (Hb 1.1-2). João apresenta a culminação dessa revelação ao afirmar: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14). É na revelação especial que Deus se dá a conhecer de modo redentor, revelando seu propósito de salvação e manifestando-se definitivamente em Jesus Cristo. Por isso, estudar as Escrituras sem chegar a Cristo é interromper a leitura antes de alcançar seu centro, pois o próprio Senhor ensinou que elas testificam a seu respeito (Jo 5.39).
Diante de verdades tão grandes, alguém poderia perguntar se, para crer, é necessário desligar a mente. Não. O próprio Deus convida o ser humano a considerar sua verdade: “Vinde, pois, e arrazoemos, diz o SENHOR” (Is 1.18). A fé bíblica é “a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem” (Hb 11.1). Agostinho sintetizou esse equilíbrio ao afirmar que crê para compreender e compreende para crer. A fé reconhece que a razão humana possui limites e que Deus revelou verdades que ultrapassam nossa capacidade de compreendê-las exaustivamente. Isso não deixa o cristão indefeso diante das perguntas difíceis. Pedro ordena que estejamos “sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós” (1Pe 3.15). A fé não teme o pensamento; ela reconhece que há verdades, como a própria Trindade, que estão além da nossa compreensão completa, sem jamais serem contrárias à razão ou àquilo que Deus revelou.
Disso decorre uma consequência prática. Se todo cristão, de alguma maneira, já faz teologia, a questão é o que fazer com essa responsabilidade. A disciplina começa pela leitura regular das Escrituras, não como exercício acadêmico isolado, mas como o meio pelo qual o crente conhece a Deus e submete a vida à sua verdade. Todo ensino novo, mesmo vindo de fonte respeitada, deve ser examinado à luz do conjunto das Escrituras, segundo o modelo dos cristãos de Bereia, que examinavam diariamente as Escrituras para verificar se aquilo que ouviam era realmente assim (At 17.11). A oração cumpre papel semelhante: pedir a Deus que amplie o conhecimento sobre Ele e transforme esse conhecimento em amor, fé e obediência não é um acréscimo devocional, mas parte constitutiva do próprio estudo teológico. O profeta Oseias expressou o alvo desse relacionamento ao declarar: “Conheçamos e prossigamos em conhecer ao SENHOR” (Os 6.3). Esse conhecimento jamais será esgotado nesta vida. Ele começa, porém, com uma decisão simples e fundamental: abrir as Escrituras, ouvir o que Deus revelou e permitir que essa verdade molde a mente, o coração e a vida do crente.
Este artigo faz parte do Curso Interdenominacional de Teologia.
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