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Curso Interdenominacional de Teologia · Artigo 04/19

Um Só Deus em Três Pessoas

O Mistério que Adoramos

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A palavra Trindade não aparece uma única vez na Bíblia. E, no entanto, poucas doutrinas sustentam tão profundamente a fé cristã quanto ela. Paulo encerra uma de suas cartas com uma bênção que reúne as três Pessoas: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com vós todos” (2Co 13.13). Não se trata de um detalhe teológico distante, mas de uma verdade presente na própria vida da igreja sempre que ela se reúne para adorar. O nome Trindade é nosso, criado para resumir aquilo que já foi revelado; a verdade que ele descreve pertence a Deus e atravessa toda a Bíblia, de Gênesis ao Apocalipse.

Tudo começa por onde Israel sempre começou: há um só Deus. “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor” (Dt 6.4). A fé cristã jamais abriu mão dessa confissão. Quando falamos do Pai, do Filho e do Espírito Santo, não estamos somando três deuses, mas continuamos afirmando que existe um só Deus verdadeiro. Essa única essência divina, porém, não se reparte entre três Pessoas como um bolo dividido em três fatias. Cada uma possui plenamente a mesma essência divina. O Pai não é um terço de Deus, nem o Filho, nem o Espírito Santo. Cada um é plena e totalmente Deus, porque a divindade não se divide.

Ao mesmo tempo, essa unidade não elimina a distinção entre as Pessoas. As três se relacionam de maneira real, e uma das cenas mais claras disso está no batismo de Jesus. O Filho está nas águas do Jordão, o Espírito desce sobre Ele como pomba, e a voz do Pai fala dos céus: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17). Não há como reduzir essa cena a um único personagem simplesmente trocando de máscara, como ensinava o antigo erro chamado modalismo. São três Pessoas distintas, presentes ao mesmo tempo, e ainda assim um só Deus.

Essa verdade não foi inventada posteriormente. Ela foi extraída da própria Escritura e revelada progressivamente. Já em Gênesis, no momento da criação do homem, Deus fala no plural: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1.26). Esse texto, por si só, não apresenta de maneira plena a doutrina da Trindade, mas encontra seu sentido mais completo à luz da revelação posterior. No Novo Testamento, essa revelação se torna clara: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1.1). O Filho é distinto do Pai e, ao mesmo tempo, plenamente Deus. O mesmo acontece com o Espírito Santo. Quando Ananias mentiu à igreja, Pedro afirmou que ele não havia mentido aos homens, “mas a Deus” (At 5.4), porque mentir ao Espírito Santo é mentir ao próprio Deus.

É comum recorrer a comparações para tentar explicar esse mistério, como a água em seus estados sólido, líquido e gasoso, ou o sol com sua luz e seu calor. Essas imagens podem oferecer alguma ajuda, mas todas falham em algum ponto. Por isso, a Igreja sempre advertiu que uma analogia, no máximo, ilustra; nunca prova nada. A água que muda de estado pode sugerir a ideia de um só Deus que apenas muda de forma, conduzindo novamente ao erro do modalismo. Já a luz e o calor do mesmo sol podem sugerir que o Filho e o Espírito sejam apenas manifestações ou efeitos do Pai, reduzindo-os a algo inferior. Por isso, ao explicar a Trindade a uma criança ou a um novo convertido, é preciso usar essas comparações com cautela e deixar claro que são as Escrituras, e não as nossas figuras, que definem quem Deus é.

Conhecer essa doutrina não é apenas um exercício de erudição; é também uma questão de discernimento para os nossos dias. O mesmo erro que, no quarto século, rebaixava o Filho à condição de criatura reaparece, em muitos aspectos, nas Testemunhas de Jeová. A resposta continua sendo a mesma declaração de Jesus: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou” (Jo 8.58), expressão que remete ao próprio nome pelo qual Deus se revelou a Moisés. Da mesma forma, o antigo modalismo, que dissolvia as três Pessoas em diferentes manifestações de um só Deus, reaparece hoje em grupos que ensinam que Jesus é, ao mesmo tempo, o Pai e o Espírito Santo. Também é importante reconhecer, com honestidade, que uma diferença histórica separou o Oriente e o Ocidente cristãos quanto à formulação exata da procedência do Espírito Santo, questão conhecida como a controvérsia do Filioque. Trata-se de uma discussão teológica e histórica real, mas ela não anula a confissão comum de que há um só Deus em três Pessoas.

Diante de um mistério tão grande, duas tentações são especialmente comuns: querer explicá-lo até o fim ou simplesmente desistir de compreendê-lo. Nenhuma das duas é a resposta correta. Os próprios pensamentos de Deus, diz Isaías, são mais altos que os nossos: “Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos” (Is 55.8). Deus é maior do que a nossa mente, e isso não deveria nos assustar, mas nos conduzir à adoração.

Da próxima vez que orar, experimente fazê-lo conscientemente, como a Bíblia ensina: dirija-se ao Pai, em nome do Filho, pelo poder do Espírito Santo. Isso não é uma fórmula vazia. É lembrar, em cada oração, que você foi adotado pelo Pai, resgatado pelo Filho e selado pelo Espírito, e que as três Pessoas, unidas em uma só vontade, estão, neste exato momento, voltadas para o seu bem.

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