No monte Sinai, Moisés pediu a Deus algo ousado: “mostra-me a tua glória” (Êx 33.18). A resposta não veio na forma de um espetáculo de luzes, mas como uma declaração. Deus passou diante dele e proclamou o seu próprio nome, revelando quem Ele é: “Senhor, Senhor, Deus compassivo e misericordioso; tardio em irar-se e grande em beneficência e fidelidade” (Êx 34.6). É assim que a Bíblia inteira fala de Deus: não por meio de uma definição fria, mas revelando o seu caráter. A esse conjunto de perfeições a teologia chama de atributos de Deus. Conhecê-los, portanto, não é um exercício acadêmico distante, mas aprender quem é Aquele em quem confiamos.
Um atributo não é uma característica que Deus possui separadamente, como quem guarda um objeto numa gaveta. É o próprio Deus, conhecido sob determinado aspecto. Por isso, as Escrituras escolhem suas palavras com cuidado: elas não dizem apenas que Deus tem amor, mas que “Deus é amor” (1Jo 4.8). Os teólogos chamam essa verdade de simplicidade divina, não porque Deus seja simples no sentido de ser limitado ou superficial, mas porque Ele não é formado por partes que se somam, como fatias de um bolo. Quando Deus ama, é todo o seu ser que ama; quando julga, é todo o seu ser que julga. Nenhuma de suas perfeições compete com outra, porque todas pertencem, ao mesmo tempo e por inteiro, ao único e mesmo Deus.
Algumas dessas perfeições pertencem exclusivamente a Deus e não podem ser compartilhadas por nenhuma criatura, nem mesmo pelos mais elevados seres angelicais. Quando Moisés perguntou o nome de Deus diante da sarça ardente, a resposta foi curta e definitiva: “EU SOU O QUE SOU” (Êx 3.14). Deus não recebeu a existência de ninguém. Ele simplesmente é, por si mesmo, enquanto tudo o mais, inclusive nós, depende dele até para o próximo fôlego. Esse mesmo Deus não tem começo nem fim: “antes que nascessem os montes, ou fosse formada a terra e o mundo, desde a eternidade e até a eternidade, tu és Deus” (Sl 90.2). Ele também não muda: “eu, o Senhor, não mudo” (Ml 3.6). Isso significa que Deus não se torna mais sábio nem mais poderoso com o passar do tempo, porque já é, de forma plena, tudo o que sempre foi. É justamente porque Ele não muda que suas promessas permanecem firmes mesmo quando nós tropeçamos.
O mesmo Deus que não muda também não está sujeito a limites. Ele tem todo o poder, e nada é grande demais para as suas mãos (Jr 32.17). Conhece todas as coisas de uma só vez, sem precisar aprender gradualmente, e está presente por inteiro em cada parte do universo, nunca apenas com uma parte de si. Davi resumiu essa realidade numa oração que atravessa os séculos: “Para onde me irei do teu Espírito ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no além-túmulo a minha cama, eis que tu ali estás também” (Sl 139.7-8). Para quem foge de Deus, isso é uma notícia incômoda. Para o filho de Deus, porém, é um dos maiores consolos: não existe lugar no mundo, nem noite tão escura, onde Ele já não esteja presente, atento e no controle.
Se esses atributos revelam a distância entre Deus e nós, outros também revelam aspectos do seu caráter que, de maneira limitada e imperfeita, podem ser refletidos pela criatura feita à sua imagem. Entre eles, a santidade ocupa um lugar de destaque. Quando o profeta Isaías teve uma visão do Senhor, os seres celestiais não clamavam justo, justo, justo, nem amor, amor, amor, mas: “santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos” (Is 6.3). Da santidade decorre a justiça, isto é, o modo perfeitamente reto com que Deus trata cada uma de suas criaturas. Ele nunca age por capricho nem de maneira contrária ao que é certo. O salmista resume: “justiça e juízo são a base do teu trono” (Sl 89.14).
E, no entanto, esse mesmo Deus santo e justo é também amor. Não se trata de um amor que manifesta apenas de vez em quando, mas de algo que pertence à sua própria natureza: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Muita gente percebe aí uma tensão: como o Deus que se ira contra o pecado pode ser o mesmo Deus que perdoa o pecador? A resposta está na cruz. Ali, a justa ira de Deus contra o pecado e o seu amor pelo pecador não se anularam, mas se encontraram. Jesus tomou sobre si o juízo que nós merecíamos, e a justiça foi plenamente satisfeita sem que a misericórdia fosse colocada de lado. As misericórdias do Senhor, proclamadas em meio à profunda dor do autor de Lamentações, “não têm fim; renovam-se cada manhã” (Lm 3.22-23).
Por trás de todas essas perfeições está uma que sustenta a nossa confiança em todas as demais: a fidelidade de Deus. “Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa. Porventura, tendo ele dito, não o fará? Ou, tendo falado, não o cumprirá?” (Nm 23.19). Diante de um Deus assim, que não muda, que tem todo o poder, que é santo e, ao mesmo tempo, cheio de graça, e que nunca falha em cumprir o que promete, a resposta certa não é tentar compreendê-lo por completo, algo que jamais conseguiremos, mas adorá-lo por aquilo que Ele já revelou.
Na próxima vez que orar, experimente começar louvando a Deus por quem Ele é, antes de pedir qualquer coisa. E, quando a vida parecer abalada, escolha um desses atributos, a sua fidelidade, a sua presença ou a sua misericórdia que se renova a cada manhã, e descanse nele. Conhecer o caráter de Deus não é reduzi-lo a uma lista de atributos; é aprender, cada vez mais, em quem estamos confiando.
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