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Curso de Capacitação Missionária · Artigo 09/98

A Missão Atravessa Cada Livro do Novo Testamento

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Muitos cristãos aprenderam a associar missões a poucos textos específicos: a Grande Comissão em Mateus, talvez alguns capítulos de Atos e pouco mais. Essa leitura, porém, empobrece o Novo Testamento. Basta percorrer seus livros, um a um, para perceber que a missão não é apenas um tema entre outros. Ela está presente em todo o Novo Testamento.

Mateus organiza seu evangelho em torno dessa perspectiva. Desde a genealogia inicial, que inclui estrangeiras como Raabe e Rute, até a ordem final dada no monte da Galileia, tudo converge para um mesmo ponto: “Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28.19). O discipulado descrito por Mateus não se resume a produzir decisões. Envolve crer, viver de acordo com aquilo em que se crê e formar outros que façam o mesmo.

Marcos conta a mesma história com outro ritmo. Onde Mateus detalha, Marcos avança rapidamente: o Reino chegou e cada cena exige uma resposta imediata. Vocação, discipulado e missão aparecem como realidades inseparáveis, sem espaço para adiamento.

Lucas amplia ainda mais o quadro ao incluir pessoas que os demais evangelhos poderiam deixar em segundo plano. O próprio Jesus define seu programa ao ler Isaías na sinagoga: boas-novas aos pobres, liberdade aos cativos, vista aos cegos e alívio aos oprimidos (Lc 4.18-19). A partir daí, mulheres, samaritanos, cobradores de impostos e pecadores públicos ocupam lugar central na narrativa. Em Lucas, a missão de Deus atravessa fronteiras étnicas, sociais e de gênero.

João apresenta a mesma missão a partir de outra perspectiva: a encarnação. O Verbo que se fez carne e habitou entre nós (Jo 1.14) torna-se o modelo da missão cristã: presença real, identificação verdadeira e serviço concreto. Também encontramos ali uma frase que resume o evangelho: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito” (Jo 3.16). A missão nasce do amor de Deus, não de estratégias humanas. Quando o Cristo ressuscitado envia seus discípulos, dizendo “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20.21), fica evidente que a missão é, desde o princípio, obra da Trindade: o Pai envia o Filho, e o Filho envia a igreja no poder do Espírito.

Atos dá continuidade a essa história ao mostrar o que acontece quando a igreja enviada começa a caminhar pelas ruas de Jerusalém, pelas estradas da Samaria e pelos portos do Mediterrâneo. E, porque a missão continua em Atos, ela também permanece presente nas cartas que vêm depois.

Paulo escreve suas epístolas como um missionário em movimento, não como um teólogo de gabinete. Sua teologia e sua prática são inseparáveis. Ele se via como devedor, porque a graça que recebera o colocava em marcha, não o deixava imóvel (Rm 1.14; 1Co 9.16). Cria firmemente que o evangelho era, em si mesmo, poder de Deus para a salvação (Rm 1.16). Por isso, adaptava sua maneira de comunicar a diferentes públicos sem alterar o conteúdo da mensagem que pregava. Suas cartas também revelam o preço dessa vocação: perseguições, naufrágios e prisões. Ainda assim, sua missão permanecia centrada na reconciliação e firmada na esperança da eternidade.

As epístolas gerais, Tiago, Pedro, João e Judas, trazem a missão para um terreno mais silencioso, mas nem por isso menos real: o cotidiano de comunidades perseguidas e dispersas. Tiago relaciona a fé genuína ao cuidado prático com os que sofrem. Pedro orienta cada crente a estar preparado para explicar, com mansidão, a razão da esperança que possui (1Pe 3.15), porque sua própria vida já desperta perguntas. João ensina que o amor vivido em comunidade torna visível um Deus que ninguém pode ver. Judas, por sua vez, insiste que verdade e amor devem caminhar juntos na busca daqueles que se perderam.

Em todas essas cartas, a missão deixa de parecer um programa especial e volta a ser aquilo que sempre foi: uma maneira de viver, sustentada por fé, amor, santidade e verdade, diante de um mundo que observa.

O Novo Testamento termina, então, não com um simples resumo teológico, mas com uma visão: uma multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua, diante do trono e do Cordeiro (Ap 7.9). Apocalipse foi escrito como carta pastoral a igrejas que enfrentavam perseguição real. Ainda assim, ou justamente por isso, aponta para esse alvo como certo e já garantido. O testemunho fiel tem um custo, mas vence “por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho” (Ap 12.11). A soberania de Cristo sobre a história não elimina a urgência da missão. Ao contrário, é ela que sustenta a igreja para perseverar com coragem e descanso.

Da genealogia de Mateus ao trono de Apocalipse, não há um único livro do Novo Testamento que trate a missão como um assunto periférico. Isso também transforma a maneira como uma igreja deve organizar seu ensino bíblico. Em vez de reservar um estudo isolado sobre missões uma vez por ano, é mais coerente revisar o plano de pregação e discipulado e perguntar, livro por livro, onde essa ênfase já está presente: em Mateus, no chamado para fazer discípulos; em Lucas, no cuidado com aqueles que estão à margem; nas epístolas, no testemunho de uma vida coerente; em Apocalipse, na certeza de que o alvo final inclui pessoas de todas as nações.

Uma igreja que lê o Novo Testamento dessa maneira não precisa acrescentar a missão à sua teologia. Precisa apenas deixar de esconder aquilo que já está escrito em cada página.

Este artigo faz parte do Curso de Capacitação Missionária.

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