No caminho de Emaús, dois discípulos caminhavam tristes, sem reconhecer quem estava ao lado deles. Jesus então, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras (Lc 24.27). O Antigo Testamento inteiro, do primeiro ao último livro, já falava dele, e não apenas a partir do momento em que nasceu em Belém. Muito antes disso, o Filho eterno já existia, sustentando todas as coisas: nele foram criadas todas as coisas... ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste (Cl 1.16-17). Quando Jesus nasceu na manjedoura, Deus não passou a existir como Filho naquele instante. O Filho eterno é que assumiu, ali, uma natureza humana que antes não possuía.
Esse mesmo Filho já havia se manifestado pessoalmente várias vezes aos homens e mulheres do Antigo Testamento. Quando Abraão erguia a mão para sacrificar Isaque, foi o Anjo do Senhor quem deteve seu braço, falando em nome do próprio Deus: porquanto não me negaste o teu filho, o teu único filho (Gn 22.12). Não é “porque Deus sabe”, mas “porque eu sei”, na primeira pessoa. O mesmo padrão aparece com Hagar no deserto, com Moisés na sarça ardente e com Josué diante de Jericó: um Anjo que fala e age com uma autoridade que pertence somente a Deus, e que muitos teólogos reconhecem como uma manifestação do Filho antes de sua encarnação. Antes de Belém, o Filho já caminhava com seu povo.
O Antigo Testamento também fala dele de modo indireto, por meio de pessoas e instituições que prefiguram, com detalhes impressionantes, quem seria o Messias. O cordeiro cujo sangue livrou os hebreus no Egito antecipava aquele que Paulo chamaria, séculos depois, de nosso Cordeiro pascal, que foi imolado (1Co 5.7). O enigmático Melquisedeque, rei e sacerdote de Salém, prefigurava um sacerdócio superior. O salmista já anunciava que o Messias seria sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque (Sl 110.4). Adão, que trouxe pecado e morte a toda a humanidade, também prepara, por contraste, a figura de Cristo, o último Adão, que traria justiça e vida a todos os que nele creem. Moisés, o mediador que subiu ao monte por Israel, e Davi, o rei ungido a quem Deus prometeu um trono eterno, apontam para o mesmo alvo: um profeta maior, que falaria por Deus, e um Rei cujo reino jamais teria fim.
Além dessas figuras, há profecias diretas, registradas séculos antes, com um grau de detalhe que nenhuma coincidência humana seria capaz de explicar. Setecentos anos antes da crucificação, Isaías já descrevia o Messias assim: ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados (Is 53.5). Miqueias já apontava o lugar de seu nascimento, uma pequena cidade sem prestígio: de ti me sairá o que será Senhor em Israel (Mq 5.2). Cada uma dessas profecias, escrita por autores diferentes e em épocas diferentes, converge para a mesma pessoa, não porque alguém as tenha ajustado depois dos fatos, mas porque um só Deus as havia planejado desde o princípio. O Salmo 22, escrito por Davi séculos antes da crucificação, já descrevia mãos e pés traspassados e algozes repartindo as vestes da vítima, detalhes específicos demais para serem tratados como mera coincidência, registrados numa época em que essa forma de morte ainda não era praticada na região.
Toda essa história de promessas, feitas a Noé, a Abraão, a Moisés e a Davi, encontra em Cristo seu ponto de chegada. Paulo resume: quantas são as promessas de Deus, tantas têm nele o sim (2Co 1.20). Nada ficou esquecido pelo caminho. A nova aliança que Jeremias havia anunciado, na qual a lei seria escrita no coração e os pecados seriam plenamente perdoados, Jesus a inaugurou pessoalmente na última ceia, ao erguer o cálice e declarar que aquele era o seu próprio sangue, derramado por nós. Reinos humanos terminam, sacerdócios se repetem e sacrifícios precisam ser oferecidos ano após ano. O trono, o sacerdócio e o sacrifício que Cristo cumpre, porém, não precisam de substituto, porque alcançaram seu alvo definitivo.
Diante de tanta convergência, existe a tentação de ir longe demais e tentar enxergar Cristo escondido em cada detalhe secundário do texto, como o número de degraus ou a cor de um tecido. João Calvino oferece o equilíbrio necessário: “devemos ler as Escrituras com o propósito de encontrar Cristo nelas, sem, contudo, forçar significados que o texto nunca pretendeu transmitir”. Da próxima vez que você abrir o Antigo Testamento, leia-o com essa dupla atenção: respeite o que o texto realmente diz e pergunte, com honestidade, para onde ele aponta. Você descobrirá que a Bíblia inteira, do Gênesis ao Apocalipse, conta uma só história, com um só Salvador, prometido havia séculos e cumprido exatamente como Deus havia dito que seria.
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