PT EN
Curso Interdenominacional de Teologia · Artigo 08/19

Jesus Viveu Entre Gente Comum

E Chamou Gente Comum

← Voltar a Curso Interdenominacional de Teologia

Paulo escreve que, vindo a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei (Gl 4.4). Não se trata de um nascimento lendário, sem lugar ou data. Jesus nasceu em Belém, cumprindo o que os profetas já haviam anunciado, num momento que a própria história registra em conexão com o censo ordenado por César Augusto. Cresceu numa cidade pequena e sem prestígio, Nazaré, e exerceu o ofício de carpinteiro, seguindo a profissão de seu pai adotivo. Foram décadas de vida comum, sem um único milagre registrado, até que, por volta dos trinta anos, iniciou um ministério público que duraria apenas três anos. Deus não enviou seu Filho para o cenário de uma fábula, mas para o centro da nossa história real, em meio a nomes, datas e lugares que podem ser verificados.

Antes de ensinar ou curar qualquer pessoa, Jesus enfrentou sozinho um deserto de fome e tentação. Ali, onde o primeiro Adão havia caído cercado de fartura, o último Adão venceu em meio à privação. Às três investidas de Satanás – pão, presunção e poder –, Ele respondeu sempre da mesma maneira: citando a Palavra de Deus. Essa vitória não diz respeito apenas ao confronto entre Jesus e o tentador; é também a vitória do seu povo, alcançada pelo seu representante. Onde nós tantas vezes falhamos diante de tentações bem menores, Cristo obedeceu perfeitamente até o fim. Pela fé, essa obediência perfeita nos é atribuída, e sua vitória se torna a nossa diante de cada tentação que ainda enfrentamos.

Depois disso, Jesus reuniu ao seu redor doze homens comuns para formar seu círculo mais próximo. A escolha continua surpreendendo. Pedro e André eram pescadores; Mateus era cobrador de impostos, desprezado pelo próprio povo por servir aos interesses de Roma; Simão, provavelmente ligado ao movimento zelote, defendia a resistência contra o domínio romano. Dois homens potencialmente colocados em lados opostos da luta política foram chamados para o mesmo grupo e passaram três anos comendo à mesma mesa. Nenhum deles possuía currículo, prestígio ou formação religiosa reconhecida. Jesus não escolheu pessoas influentes para fundar sua igreja, mas gente comum disposta a segui-lo de perto. E é exatamente esse tipo de gente que Ele continua chamando hoje.

André, discreto, tinha o hábito de levar outras pessoas até Jesus. Foi ele quem apresentou seu próprio irmão, Pedro. Tomé, por sua vez, precisou ver com os próprios olhos as marcas da crucificação antes de crer na ressurreição. Sua dúvida sincera, porém, terminou em uma das confissões mais fortes de toda a Escritura: Senhor meu e Deus meu. Nem toda fé madura nasce de um entusiasmo imediato; algumas nascem de uma dúvida honesta, levada a sério até o fim.

Mas nem toda proximidade resulta em fidelidade. Judas Iscariotes ocupava uma posição de confiança entre os doze, responsável pela bolsa comum do grupo. Ainda assim, alimentava secretamente um coração dominado pela ganância, até vender o próprio Mestre por trinta moedas de prata. Nenhum outro apóstolo teve tanto acesso à intimidade de Jesus e terminou tão distante dele. Sua história permanece como um alerta solene: estar perto das coisas de Deus, ocupar uma posição de responsabilidade ou frequentar a igreja durante anos não substitui uma verdadeira conversão do coração.

Foi ao lado desses homens que Jesus conduziu seu ministério público, ensinando como tendo autoridade, e não como os escribas (Mc 1.22). Ele não falava simplesmente citando outros mestres, mas como quem possuía autoridade em si mesmo. Seus milagres também nunca foram mero espetáculo. Eram sinais que apontavam para sua identidade: o Deus que tem autoridade sobre a doença, os demônios, a natureza e até a própria morte.

Em uma sinagoga, Jesus ainda declarou publicamente sua missão ao ler o rolo do profeta Isaías. Ele veio evangelizar os pobres... proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos (Lc 4.18). Não era o libertador político que muitos esperavam, mas algo infinitamente maior: o Salvador que vinha resgatar aqueles que estavam, de fato, perdidos. Não por acaso, na maior parte do tempo, Jesus evitava assumir publicamente o título de Messias. Ele sabia que o povo esperava um libertador político, enquanto sua missão era sofrer e morrer para realizar a salvação, e não expulsar Roma.

Esse é o Jesus real apresentado pela Escritura: nascido em um lugar e em um tempo verificáveis, verdadeiramente tentado e verdadeiramente vencedor, cercado por pessoas comuns, algumas fiéis até a morte e uma delas traidora até o fim. Ele ensinava e agia com uma autoridade que pertence somente a Deus.

Se você já pensou que sua origem simples, sua profissão comum ou seu passado o desqualificam para servir a Cristo, olhe novamente para os doze: pescadores, um cobrador de impostos e um revolucionário. Deus continua chamando pessoas assim. A pergunta não é se você é digno o bastante, pois nenhum dos doze era. A verdadeira pergunta é se você está disposto, como eles, a deixar tudo para segui-lo.

Quer conhecer melhor o trabalho do Projeto Didasko em Portugal?