Existe uma frase, escrita há quase dois mil anos, que resume o assunto mais espantoso de toda a Escritura: o Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1.14). João não fala de um anjo que apareceu por um instante, nem de um espírito que assumiu temporariamente uma forma humana. Ele fala de Deus, o Filho eterno, que passou também a possuir um corpo, uma mente e um coração humanos, sem deixar de ser quem sempre foi. Jesus não é noventa por cento de uma coisa e noventa por cento de outra, nem uma mistura das duas naturezas. Ele é, ao mesmo tempo, plenamente Deus e plenamente homem, na mesma Pessoa.
As Escrituras afirmam as duas verdades com igual clareza. Por um lado, atribuem a Jesus obras que somente Deus pode realizar, como criar, sustentar o universo e perdoar pecados. Ele também recebeu adoração sem jamais corrigir aqueles que se ajoelhavam diante dele. C. S. Lewis apresenta um argumento simples: um homem que fosse apenas um homem e dissesse as coisas que Jesus disse a respeito de si mesmo não poderia ser considerado somente um grande mestre de moral. Ou Ele era, e é, o Filho de Deus, ou era um louco, ou algo ainda pior. Não existe uma terceira opção confortável. Por outro lado, esse mesmo Jesus sentiu fome no deserto, sede na cruz, chorou diante de um túmulo e morreu de verdade. Quando a lança abriu o seu lado, saiu sangue e água, uma evidência concreta de que aquela morte foi real, e não uma encenação. Depois da ressurreição, foi justamente ao tocar essas marcas que o apóstolo Tomé, cético até aquele momento, confessou: Senhor meu e Deus meu.
Se Jesus é plenamente Deus e plenamente homem, quantas pessoas existem nele? A igreja antiga respondeu a essa questão no Concílio de Calcedônia, em 451: uma só Pessoa, com duas naturezas completas, unidas sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação. A natureza divina permanece plenamente divina, e a natureza humana permanece plenamente humana. Nenhuma absorve a outra, e ambas pertencem à mesma e única Pessoa. De forma limitada, podemos pensar na relação entre corpo e alma: não são a mesma coisa, mas pertencem a uma única pessoa. Foi essa mesma Pessoa que orou no Getsêmani, pedindo que o cálice fosse afastado, e depois se submeteu à vontade do Pai. Não eram duas pessoas dividindo uma decisão, mas um só Jesus experimentando, ao mesmo tempo, o peso humano daquela hora e a obediência que sustentava todo o plano da redenção. Nenhuma analogia humana é capaz de esgotar esse mistério. Ainda assim, ele não é um enigma abstrato de seminário. É o fundamento de como Cristo, agindo como uma só Pessoa, pôde representar a humanidade diante de Deus e, ao mesmo tempo, carregar o peso infinito do nosso pecado.
Essa mesma união explica uma verdade profundamente consoladora: Jesus foi tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado (Hb 4.15). Por ser uma só Pessoa, Ele não podia pecar, mas isso não tornou suas tentações menos reais. Pense em um exército que sabe, de antemão, que vencerá a guerra. Ainda assim, ele enfrenta combates verdadeiros, desgaste e ferimentos. Jesus experimentou a pressão real de cada tentação e venceu, de fato, todas elas. Por isso temos um Sumo Sacerdote que não observa nossa luta de fora, como alguém que jamais sentiu o seu peso. Ele enfrentou pressão real e permaneceu fiel. É por isso que podemos nos aproximar dele com confiança, e não com vergonha.
Tudo isso fez parte do que a teologia chama de estado de humilhação: esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo... e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz (Fp 2.7-8). O mesmo Deus que deu a lei no Sinai passou a viver debaixo dela. O mesmo a quem os anjos adoram nasceu numa manjedoura e cresceu em uma cidade sem prestígio. Essa humilhação não ficou restrita à cruz. Ela marcou toda a sua vida terrena, desde o nascimento humilde até a rejeição que sofreu. E, ainda assim, em nenhum momento Ele deixou de ser Deus. Sua humilhação não significou abandonar sua divindade, mas assumir voluntariamente a condição humilde de servo, escondendo a majestade que lhe pertencia para cumprir a obra que havia vindo realizar.
Mas a história não termina no sepulcro. Paulo descreve a grande virada com uma só expressão: por isso, também Deus o exaltou sobremaneira, e lhe deu um nome que é sobre todo nome (Fp 2.9). O trono que Cristo ocupa hoje, à direita do Pai, é a glória daquele que obedeceu até a morte. E, desse lugar, Ele intercede agora mesmo por você. Na próxima vez que orar, lembre-se de que você não está falando com uma metade de Cristo, nem com um Deus distante que jamais sentiu o peso do seu cansaço. Está falando com Aquele que é plenamente Deus e plenamente homem, que enfrentou e venceu cada tentação, e que, neste exato momento, intercede, com todo o poder que possui, a seu favor.
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