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Curso Interdenominacional de Teologia · Artigo 11/19

As Velhas Heresias Voltam Sempre com Roupa Nova

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Ao longo da história, a pergunta que Jesus fez aos seus discípulos, “e vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16.15), já recebeu muitas respostas erradas. Nenhuma delas O nega por completo; todas O diminuem de alguma maneira, reduzindo-O até caber em uma categoria mais confortável. O padrão se repete: o erro raramente se apresenta como um inimigo declarado da fé. Ele chega vestido com as roupas do pensamento mais respeitado de sua época: filosofia, ciência, compaixão social, tolerância religiosa. E é justamente por isso que consegue enganar até pessoas sinceras. A igreja já enfrentou dezenas de tentativas de explicar Jesus de uma maneira que parecia razoável, mas, quase sempre, a raiz do erro era a mesma: tomar uma verdade real sobre Ele e excluir tudo aquilo que não coubesse na explicação escolhida. Conhecer alguns desses erros antigos e seus ecos modernos não é mera curiosidade histórica. É um exercício de discernimento para reconhecer o mesmo padrão hoje, ainda que apresentado com um vocabulário diferente.

No século II, o gnosticismo prometia um conhecimento secreto, reservado a poucos iniciados e superior à fé simples pregada pelos apóstolos. Influenciado por uma filosofia que considerava a matéria má e o espírito bom, esse sistema concluiu que Deus jamais assumiria um corpo humano de verdade. Jesus, segundo essa perspectiva, apenas aparentaria ter um corpo. Paulo responde diretamente: “nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade” (Cl 2.9). Corporalmente, e não apenas em aparência. Se o corpo de Jesus fosse uma encenação, sua morte também seria, e a nossa salvação estaria apoiada no nada. O mesmo erro reaparece hoje em correntes espiritualistas que prometem um conhecimento oculto sobre Jesus, supostamente escondido da igreja comum e revelado somente a alguns. A roupagem mudou, mas a promessa continua sendo a mesma.

No século IV, um presbítero chamado Ário ensinou que o Filho não era eterno, mas a mais exaltada das criaturas de Deus: quase divino, porém não verdadeiramente Deus. A diferença entre as duas posições podia ser expressa em uma única letra grega: Cristo seria semelhante ao Pai ou da mesma substância que Ele? A resposta de Jesus, dada séculos antes desse debate, continua sendo a melhor réplica: “antes que Abraão existisse, Eu Sou” (Jo 8.58), tomando para si o próprio nome com que Deus se apresentou a Moisés. Esse erro antigo reaparece, quase intacto, nas Testemunhas de Jeová, que ensinam que Jesus foi o primeiro ser criado por Deus. Se Cristo fosse apenas uma criatura, ainda que exaltada, a cruz seria, no máximo, o sacrifício nobre de um ser especial, sem poder para reconciliar a humanidade com um Deus infinito. Foi necessário um concílio inteiro, em Niceia, no ano 325, além de décadas de ensino paciente de pastores dispostos a pagar um alto preço por essa convicção, para que a igreja afirmasse com clareza: o Filho é Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado.

As heresias de hoje raramente chegam com nomes gregos. Elas aparecem como pesquisa histórica séria, causa social ou tolerância religiosa. Dizem que Jesus foi apenas um grande mestre moral, esvaziado de milagres e da ressurreição. Dizem que o que realmente importa é a justiça social que Ele defendeu, colocando a salvação eterna em segundo plano. Dizem ainda que cada religião possui seu próprio caminho até Deus e que Jesus seria apenas uma opção entre muitas. Nenhuma dessas ideias nasce de uma mentira completa. Jesus realmente ensinou com uma autoridade moral incomparável, realmente se compadeceu dos pobres e realmente deseja alcançar todos os povos. O erro está em tomar um fragmento verdadeiro e transformá-lo na explicação inteira. Contra isso, a resposta do próprio Jesus não deixa espaço para relativizações: “eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (Jo 14.6). Pedro, diante das mesmas autoridades que haviam condenado Jesus, declarou sem suavizar suas palavras: “não há salvação em nenhum outro, porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4.12).

Diante de qualquer nova descrição de Jesus, vale o mesmo teste aplicado pelos cristãos de Bereia: receber a mensagem com avidez, mas “examinando as Escrituras todos os dias, para ver se estas coisas eram assim” (At 17.11). É preciso perguntar o que aquela descrição nega daquilo que a Bíblia afirma sobre Cristo, reconhecer o fragmento de verdade que muitas vezes está presente e responder com a própria Escritura, com firmeza e sem hostilidade, lembrando que muitas pessoas repetem essas ideias sem sequer saber de onde elas vieram. As heresias mudam de roupagem a cada século, mas a resposta continua sendo a mesma: voltar ao Jesus que a Bíblia revela e responder, você mesmo, com as suas próprias palavras, à pergunta que Ele fez primeiro: quem você diz que Ele é? Essa não é uma pergunta para ser respondida uma única vez e depois esquecida. É uma pergunta que cada geração e cada pessoa precisa responder novamente, com as próprias palavras, sem se contentar com respostas emprestadas da cultura ao redor.

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